Parafraseando o famoso conceito de Fredric Jameson: é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do apelo cinematográfico de dinossauros. Por isso mesmo, eles estão bem proeminentes no material de divulgação de O Fim da Rua, o que se torna mais do que um spoiler, um problema. A grande graça do filme, haja vista que nele tudo é bastante formulaico, é a presença dos dinos, que, se viesse como uma surpresa, seria um certo ganho para o longa de David Robert Mitchell.
Mais de trinta anos depois do Parque dos Dinossauros original, uma franquia que já rendeu quase incontáveis sequências – sendo a última um dos grandes sucessos do ano passado – estabeleceu um padrão narrativo e técnico para o gênero. Aqui nada disso é minimamente subvertido, porque os efeitos não são lá tão impressionantes. No mais, são pessoas brancas de classe média protegendo os pilares da sociedade estadunidense: família, propriedade e direito a armas.
Nesse sentido, O Fim da Rua se revela totalmente conservador, sem ensaiar o mínimo de frescor, o que é frustrante, vindo de um diretor que fez o excelente Corrente do mal. O que talvez haja de mais interessante aqui é a questão de como o tempo é retratado e narrativamente manipulado. O longa começa com uma confraternização exatamente na Oak Street, cenário principal, onde vizinhos e vizinhas estão juntos numa espécie de utopia suburbana. Alguns figurinos e apetrechos remetem aos anos de 1950, mas poderiam ser hipster contemporâneos – é sempre uma possibilidade. A menção à série Cosmos, no entanto, já estabelece que estamos em algum momento depois de 1980.
Denise (Anne Hathaway), seu marido, Greg (Ewan McGregor), e seus filhos adolescentes, Audrey (Maisy Stella) e Brian (Christian Convery) vivem cada um seus problemas: ela está frustrada com o casamento, e quer ser escritora; ele perdeu o emprego e arrumou um trabalho de entregador de pizza, mas não contou à família; a filha está descobrindo sua sexualidade; e o filho está começando a entender que a adolescência não é a mesma coisa que a infância.
É nesse cenário que uma espécie de explosão temporal leva a Oak Street e sua vizinhança ao passado pré-histórico. Mitchell, que assina o roteiro, não se mostra preocupado com explicações detalhadas, e isso é um alívio, pois o que menos importa é como isso aconteceu e sim as consequências que são trazidas aos personagens, e como eles lidam com isso. Bem, lidam com isso buscando a manutenção da família nuclear como uma célula básica da sociedade.
Se há algumas piscadelas para um toque mais progressista, como uma personagem negra (Jordan Alexa Davis), que desperta interesses românticos tanto de Brian quanto de Audrey, ou a rápida discussão sobre Deus, tudo logo se dissipa em prol de restabelecer a ordem vigente antes dos dinossauros.
Sem desviar do óbvio, O Fim da Rua se refere a clássicos de aventura e ação do passado, de Tubarão ao próprio Parque dos Dinossauros, passando por coisas do tipo Goonies e afins, o que deixa bem claro seu caráter mais de uma nostalgia derivativa do que a tentativa de algo original.
