O que há de mais etéreo em As Correntes, da argentina Milagros Mumenthaler, é o que deixa a marca mais forte. Premiado no Festival de San Sebastián, o longa encontra sua razão de ser numa forma que remete ao onírico, abordando assuntos complexos, como suicídio e traumas.
Trabalhando com o diretor de fotografia Gabriel Sandru, Mumenthaler medita sobre a essência de uma mulher cindida em duas emocionalmente. Lina (Isabel Aimé González Sola) é uma designer de moda argentina que está na Suíça para uma premiação. Talvez pela distância de casa ou a solidão, tudo é destituído de sentido para ela, tanto o prêmio quanto sua própria vida. Ela tenta se matar, jogando-se no rio Ródano, mas, na cena seguinte, está entrando em seu hotel, enrolada num papel laminado dourado, para a aquecer. Ao mesmo tempo a imagem é conflitante: uma suicida fracassada e uma mulher que parece enrolada numa folha de ouro.
A partir de estranhamentos como esse, o roteiro assinado por Mumenthaler, coloca Lina em situações de um contido desespero que a consome. O filme não se apressa, no entanto, em ter um intuito, segue livre, como navegando pelas correntes da vida de sua protagonista, cuja trajetória parece ser levada pelas circunstâncias, raramente reagindo.
De volta a Buenos Aires, Lina é jogada novamente em sua vida cotidiana com o marido, Pedro (Esteban Bigliardi), e a filha de cinco anos, Sofia (Emma Fayo Duarte), que parece desconhecer o que aconteceu com ela durante a viagem, exceto pelo fato que Lina desenvolve uma fobia de água, evitando até o banho, o que causa problemas com sua pele e cabelos. Seu lado emocional também se deteriora, a ponto de Lina se dissociar de si mesma, vendo-se como outra pessoa. Uma vida de privilégios e sucessos começa a apresentar fissuras diante das pressões domésticas, profissionais e pessoais.
Quando, em sua porção final, As Correntes tenta trazer explicações sobre o passado de sua protagonista, mostra mais do que o necessário. O filme acerta mais quando é elíptico em sua construção e em seu desenvolvimento, correndo mais livremente pelos pensamentos, medos e ansiedades da personagem de González Sola, em excelente atuação.
