Os filmes de Daniel Nolasco são marcados pela sinceridade desconcertante com que aborda seus personagens e, em muitos casos, a sexualidade deles. De curta como Urano e O Cavalo de Pedro ao longa Vento Seco, o cineasta investiga como o desejo carnal contamina a vida diária das figuras mais díspares. Em seu novo filme, Apenas coisas boas, a estratégia é a mesma, mas ele adiciona um outro elemento: o tempo – e o que este faz com o desejo.
Situando a trama num universo rural marcado por regras claras de masculinidade, faz com que os personagens se desloquem por caminhos não demarcados explicitamente, mas que compactuam com suas forças emocionais e sexuais. Antônio (Lucas Drummond) é um fazendeiro que encontra o motoqueiro Marcelo (Liev Carlos) caído na estrada após um acidente. Acolhe-o, cuida dos ferimentos, e ambos criam um forte laço.
Nolasco, que nasceu no interior de Goiás, observa o espaço com conhecimento e cuidado e, por isso mesmo, é capaz de invadi-lo com subversões. Levando para outro lugar os códigos da gramática do faroeste, realiza um O Segredo de Brokeback Mountain brasileiro mais com mais sensualidade explícita, apropriando-se do estrangeiro e o ressignificando num contexto nacional. Não deixa de ser uma história de amor que irá reverberar no futuro, numa delicada passagem de tempo que seria impossível ser mais cinematográfica: Drummond afunda seu corpo na água e, quando emerge a cabeça, o tempo passou, e o papel agora é de Fernando Libonati.
O Antônio do futuro parece diferente daquele do passado, mais triste e ainda mais calado – e mais rico também. Agora é o dinheiro que permite uma vida de prazer e sexo e, por isso mesmo, vazia. O ocasional amante mais jovem (Igor Leoni) é uma ameaça ou um companheiro? Os clichês o colocariam no campo de um rapaz explorador, mas Apenas coisas boas não está interessado no óbvio.
Nolasco, em parceria com Larry Machado, diretor de fotografia de diversos trabalhos seus, realiza um longa de impressionante beleza estética com imagens que pulsam na tela com vida e vigor, mostrando desejo e sexo sob uma luz positiva, sem culpa ou pressões, apenas como uma manifestação humana de carnalidade e afetos – um gesto politico em um mundo tão marcado pela ascensão do conservadorismo.
