Nino (Hasan Akil) e Yasmina (Mounia Akl) nasceram no mesmo dia, no mesmo hospital, com apenas alguns minutos de diferença. O destino parece estar do lado deles, para que se conheçam e vivam uma história de amor. Um belo e triste mundo acompanha algumas décadas na vida desse casal, numa Beirute que parece estar sempre conturbada.
O diretor e roteirista Cyril Aris faz seu longa marcado por uma artificialidade proposital e, a partir dessa ferramenta, investiga a realidade das personagens e da cidade. É uma escolha formal ousada que contamina tudo, da fotografia (linda, assinada por Joe Saade) à narrativa, mas que funciona bem na maneira fluida com que ele conduz seu longa.
Nino e Yasmina são quase opostos: ele é otimista, cuja visão de mundo é marcada pela perda dos pais num acidente quando criança, e ela, realista desde a separação de seus pais. Três décadas da vida dessas duas pessoas são a força da narrativa, cuja montagem, assinada pelo diretor e Nat Sanders, vai e volta no tempo, dá piscadelas a Wong Kar-Wai, mas é, claro, tem o estilo totalmente de Aris.
No passado, os dois foram colegas de escola e confortaram um ao outro. Nino a encantou com a imagem de uma ilha onde estariam seus pais, e isso se torna o grande sonho da dupla, encontrar esse lugar, um paraíso terreno, uma possibilidade de paz e amor banhada pelo sol. Anos depois, por acaso, eles se reencontram, e nem parece que ficaram anos sem se ver. Novamente, estão juntos, novamente com expectativas diferentes. Ela não quer ter filhos e acredita que o romance não vá muito longe, ele é bem o contrário.
Tendo à frente o romance entre Nino e Yasmina, coloca-se como moldura a história conturbada do Líbano na qual os personagens se inserem. Há um elenco colorido em torno deles com coadjuvantes que não apenas completam o círculo ao seu redor, mas também mostram uma Beirute habitada por tipos humanos de grande diversidade.
O contexto geopolítico libanês no qual se dá a trama de amor é o que traz força, especificidade e originalidade a Um belo e triste mundo, que se vale de elementos típicos de melodramas românticos para subvertê-los à realidade do país e dos personagens. A história do Líbano invade a vida deles, e é nesses momentos que o longa se mostra tão acertado.
