O diretor Craig Gillespie traça o caminho de uma super-heroína bem imperfeita para compor a sua Supergirl, a nova investida da DC Comics no universo dos antigos habitantes do planeta Krypton. Vivida com energia pela australiana Milly Alcock, Kara Zor-El, a prima do Super-Homem (David Corenswet), começa a história numa vibe à la a boa e velha Rê Bordosa de Angeli, mal acordando de uma bebedeira e outra, tendo por companhia apenas o fiel cãozinho Krypto.
Exceto por esse apego ao animalzinho, esse começo da personagem não parece viável para despertar muita simpatia, ainda que os excessos da moça provenham da grande dor de ter perdido os pais (David Krumholtz e Emily Beecham) e seu planeta e sentir-se completamente desgarrada na Terra, apesar dos esforços do primo.
Nada como uma oportunidade para o super-heroísmo latente se expressar como quando surge no caminho de Kara a garotinha Ruthye (Eve Ridley). Ela acaba de perder também seus pais, massacrados pelo vilão Krem (Mattias Schoenaerts, irreconhecível por baixo da maquiagem de monstrengo), e está imbuída do mais obstinado espírito de vingança, contando para isso com a espada especial deixada pelo pai. A adesão de Kara a Ruthye não é imediata mas, quando finalmente acontece, sugere um dos grandes temas do filme, o empoderamento feminino com o toque de passagem de geração. Ruthye, aliás, já é uma menina empoderada, ainda que não conte com os superpoderes de Kara.
Kara, afinal, vai ter chance de sobra de experimentá-los em algumas das boas sequências do filme, como quando ela é lançada no espaço e ressurge para enfrentar uma gangue de assaltantes espaciais - esta também toda feminina. Mas é nas lutas contra um monte de marmanjos que a Supergirl afinal vai se esbaldar, começando por uma queda de braço num desses bares do espaço mal-frequentados, popularizados desde Star Wars, onde literalmente todas as espécies do universo aparecem com péssima aparência e ainda piores intenções.
Afinal, Kara vai ter que unir-se a Ruthye no enfrentamento a Krem por este ter atingido seu cãozinho com uma flecha envenenada, cujo antídoto ele carrega no pescoço. Isto deflagra uma perseguição das duas ao vilão de planeta em planeta, um deles batizado como Belquis - uma homenagem à desenhista brasileira Belquis Evely, que assina a HG de 2020 que inspira o roteiro.
Jason Momoa também coloca sua volumosa musculatura em cena como o Lobo, um caçador de recompensas intergaláctico que pode até não ser bem um herói mas terá lá suas participações nas inúmeras lutas e explosões que povoam a tela, preparando os videogames que virão na cola do filme.
Sendo uma personagem mais jovem do que a Mulher-Maravilha, ela é uma aposta da DC para atrair gerações mais jovens, ainda que seja inegável um toque um pouco retrô em sua imagem para as gerações das redes sociais. Mesmo assim, ela pode despertar simpatia tanto por sua energia - depois que larga as bebedeiras - quanto por sua rebeldia e humor cínico. A conferir se vai rolar.
