A diretora e roteirista Caru Alves de Souza volta ao universo dos menores de idade em confronto com o sistema judicial na série De Menor, que repete o nome e a temática de seu longa premiado de 2013 mas vai além, inclusive num novo formato.
A partir do reconhecimento de que tribunais são também espaços para uma certa teatralidade, recorrendo a ferramentas como discursos e figurinos obedientes a certas regras para impressionar, o filme vale-se de uma exposição dos bastidores que deixa bem claro que estamos diante de uma encenação - que corresponde, não raro, a uma fiel representação de espantosos atos reais.
Girando seu jovem elenco em diversos papéis ao longo dos seis episódios, De Menor coloca em foco a vulnerabilidade de famílias pobres, comandadas por um único genitor - quase sempre a mulher - em que menores envolvem-se em situações de risco, que os levam a ser alvos do sistema judicial, justa ou injustamente.
Fugindo tanto ao vitimismo automático quanto ao maniqueísmo, a série retrata situações como do garoto acusado de tráfico numa armadilha de policiais corruptos (primeiro episódio) como de um jovem fotógrafo que registrava um protesto contra a reforma do ensino médio e perde uma vista no enfrentamento com a polícia - sendo acusado de depredação do patrimônio público (segundo episódio). O estranhamento do sistema judicial a estes réus que vêm de camadas populares, são negros ou vivem em ocupações arma um gatilho para condenações automáticas - e é um recurso esperto da série colocar em cena a discussão do que se vê, através de um ou mais personagens que interrogam diretamente o espectador.
Essa quebra da quarta parede, por assim dizer, é o elemento mais criativo da série, além do revezamento dos mesmos atores nos papéis dos jovens, juízes, advogados, promotores e até mães, o que evidencia também o quanto vários dos ocupantes desses postos podem ser inexperientes também. Além disso, essa circulação de papéis permite um jogo de espelhos que de outra forma não ocorreria, rompendo a rigidez de uma encenação convencional.
Há nisso também uma sábia reflexão sobre a imposição de clichês no julgamento de aparências, induzindo à classificação dos chamados “elementos suspeitos” que normalizam prisões injustificadas e todo tipo de ilações precipitadas que levam, não raro, jovens a bancos dos réus, ainda que inocentes, apenas por serem quem são.
