Agnieszka Holland é uma veterana diretora que se ocupa muitas vezes da história em seus filmes, caso dos recentes Zona de Exclusão (2023) e A Sombra de Stálin (2019). Em Franz, ela focaliza a figura do escritor tcheco Franz Kafka (1883-1924), a partir do roteiro escrito em parceria com Marek Epstein, procurando mergulhar na personalidade de um dos autores mais importantes do século XX.
Desde o início, torna-se claro que o interesse recai sobre a personalidade de Kafka - vivido com intensidade pelo estreante em cinema Idan Weiss, que guarda uma marcante semelhança física com o personagem verdadeiro.
Focando no círculo familiar de Kafka, uma família judia de classe média em Praga, o filme recorda a relação sempre tensa de Franz, único filho homem, com o pai autoritário, Hermann (Peter Kurth). Pragmático e dominador, Hermann tenta impor ao filho a condução de seus negócios comerciais, contra o que o jovem resistia, já irresistivelmente atraído à vida intelectual e à literatura.
Se a relação amedrontada com este pai controlador produziu em Franz a tendência a uma certa timidez, isto não o impediu de frequentar um círculo intelectual, do qual fazia parte o também escritor Max Brod (Sebastian Schwarz) - que, como se sabe, foi crucial para a sobrevivência da obra de Kafka, desobedecendo às ordens expressas do amigo de que a destruísse, quando morreu precocemente, aos 40 anos, de tuberculose.
A fotografia de Tomasz Naumiuk e a montagem de Pavel Hrdicka traduzem escolhas estéticas que suavizam as habituais molduras rígidas dos filmes de época, modernizando sua linguagem e acompanhando uma intenção assumida pela diretora de criar pontes com a modernidade - em que a admiração por Kafka tornou-se um fenômeno mundial e midiático, retratado na intensiva visitação à casa que abriga o museu com seu nome, em Praga, seguindo seus tours guiados, e a existência de produtos bizarros batizados com o nome do escritor, como hambúrgueres.
Essa janela aberta de crítica à comercialização intensiva do nome de um homem que primava pela discrição e a modéstia certamente é justificada, embora essas intrusões do presente nem sempre funcionem em benefício do bom andamento da cinebiografia. O filme é bem mais autêntico quando procura fazer jus à sensibilidade do protagonista, e mesmo às suas contradições, como no episódio do fracassado noivado com Felice Bauer (Carol Schuler).
Em momentos como esse, assim como nos enfrentamentos com o pai ou na suave convivência com a irmã Ottla (Katharina Stark) é que o filme atinge suas notas mais altas e se aproxima de uma sutil homenagem a esse homem tão genial quanto labiríntico. E nesse labirinto, mesmo seguindo pistas do mistério que ele lançou em livros singularmente premonitórios como A Metamorfose e O Processo, entre tantos outros, também este filme se perde.
