O cinema turco obteve uma grande repercussão no Festival de Berlim 2026, em que o drama Salvação, do veterano Emin Alper - que teve exibido no Brasil, em 2022, seu filme Dias Ardentes, na Mostra de São Paulo - venceu o Urso de Prata com o Grande Prêmio do Júri.
Doutorado em História Turca Moderna, Alper assina também o roteiro, baseado em fatos reais, que relata a iminência de uma guerra entre duas aldeias próximas, dominadas por clãs curdos rivais. Anos atrás, a região foi tomada por grupos terroristas e um dos clãs abandonou suas terras, tomadas pelos rivais. Quando o grupo antigo volta, a velha rivalidade se instala, prometendo a guerra e o massacre.
O Estado, representado pelo exército que vigia precariamente a região, pouco ou nada pode fazer para que o conflito estoure, escudado na religião e numa tradição que não aceita a intervenção nem da ciência, nem da cultura ou do que quer que seja. É um mundo primitivo, masculino, guerreiro e impiedoso, retratado como a crônica de mortes anunciadas - mas cuja denúncia se tornará possível por um pequeno detalhe.
O filme, em todo caso, olha de frente esse universo arcaico e impermeável a mudanças e negociações e que serve muito bem como metáfora de tantas outras guerras intermináveis em outros locais do mundo. A fotografia (de Baris Aygen e Ahmet Sesigürgil) e a montagem (de Özcan Vardar) mantêm a tensão permanente, estruturando uma narrativa potente cuja impressão permanece nas retinas muito tempo depois de terminado.
