16/07/2026
Drama Biografia

A Divina Sarah Bernhardt

Em 1896, a atriz francesa Sarah Bernardt é uma celebridade mundial e recebe uma homenagem. Numa vida pontuada por grandes paixões, como o colega Lucien Guitry, e algumas tragédias, como a perda de uma perna, ela expressou uma personalidade livre e marcante. Nos cinemas.

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Celebridade num tempo de modestos meios de comunicação de massa e muito antes das redes sociais, a francesa Sarah Bernardt (1844-1923) foi uma das atrizes mais importantes do mundo. Conhecida nos quatro cantos da Terra, ela foi também uma mulher livre, que administrava o próprio dinheiro e vivia com grande hedonismo, dando festas e colecionando amantes de ambos os sexos.

Um pouco dessa personalidade esfuziante é captada pela atriz Sandrine Kiberlain, que encarna com a ambivalência necessária essa figura inteligente, sagaz, megalomaníaca, vaidosa, egoísta, apaixonada e progressista em A Divina Sarah Bernardt - que colhe seu nome de como era conhecida a atriz, famosa por não cultivar a modéstia.

No entanto, seu talento era real e verificado constantemente pelas platéias de todo o mundo, inclusive no Brasil - onde ela fez três turnês, inclusive a do acidente fatídico, no Rio de Janeiro, em 1905, que dez anos depois custou-lhe a amputação de uma perna. Sarah, aliás, terminou sua vida igualmente sem um pulmão e um rim, trabalhando incansavelmente  e mantendo sua vida social intensa.

Partindo do roteiro de Nathalie Leuthreau, o filme dirigido por Guillaume Nicloux começa no ano de 1896, quando a atriz recebeu uma homenagem, para atravessar uma vida cheia de emoções e movimentos. Utiliza, também, a convalescença de Sarah, em 1915, para através de uma longa conversa com o afilhado Sacha Guitry (Arthur Mazet) - cineasta e dramaturgo -, puxar o fio do grande dilema de sua vida, o amor turbulento com o pai dele, o ator Lucien Guitry (Laurent Lafitte).

Adepta do amor livre, mãe solteira de um único filho, Maurice (Grégoire Leprince-Ringuet), Sarah teve muitos amantes, mas nenhum deles teve a relevância de Lucien em sua vida. Ele era casado e ela nunca se casou, mas mantiveram por anos essa relação turbulenta e feroz, que culminou numa ruptura quando ele, depois de separar-se da mulher, deixou-a pela jovem Charlotte (Mathilde Ollivier). Sarah lidou com a separação de Lucien da pior maneira possível, recorrendo a toda sorte de intrigas. 

Sem negar esse caráter egocêntrico e caprichoso, Sandrine Kiberlain desdobra camadas de uma mulher extraordinária e complexa, escapando de reduzi-la a uma caricatura através de imensas doses de auto-ironia - que a própria Sarah cultivava em torno de si. O filme também a revela como membro meritório de um meio intelectual privilegiado, na esfuziante Belle Époque, frequentado por personalidades como Victor Hugo, Émile Zola, Sigmund Freud, Alexandre Dumas e outros. E não esquece de ressaltar sua ousadia artística, tornando-se intérprete de 112 papéis, inclusive masculinos - interpretando Hamlet no teatro e no cinema. É difícil reproduzir tudo o que ela fez como pioneira, uma feminista a seu modo e em proveito próprio, mas Kiberlain dá o seu melhor, num filme que também fornece um eficiente retrato de época. A Belle Époque, afinal, era bem menos moralista do que nossos tempos.

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