Em 1962, o Carnegie Hall, nos EUA, promoveu e sediou um espetáculo para apresentar a Bossa Nova ao mundo. Alaíde Costa, um dos principais nomes do gênero, no entanto, não foi convidada. Só em 2023 foi feita a reparação, e ela se apresentou na sala em Nova York. Esses fatos importantes e reveladores são coadjuvantes no documentário A Noite de Alaíde. A tal “noite” do título é a do espetáculo, mas o longa de Liliane Mutti termina exatamente quando o espetáculo está para começar, negando-nos a possibilidade de vê-la no palco.
Esse não é a única escolha questionável do filme, que traz uma longa entrevista de Alaíde revendo toda sua trajetória, desde a infância nos subúrbios cariocas, quando o irmão a inscreveu num concurso de calouros num circo, até a parceria com nomes como João Gilberto, na Bossa Nova, e a mais recente com José Miguel Wisnik. Tudo isso, entretanto, é dramatizado, uma sobreposto por uma animação.
Novamente, nos é negado ver o rosto de Alaíde contanto sua história, ver as expressões, as emoções se materializando em suas faces conforme relembra e narra sua própria história. Só no final vamos ver seu rosto dos quase 90 anos, à época da apresentação em Nova York. Achatado entre as encenações está um material de arquivo muito rico que merecia mais atenção.
Ao optar por essas estratégias, é como se Mutti não confiasse muito no potencial do que tinha – ou na capacidade do público de manter a atenção a um depoimento – e precisava ir além. A animação não é ruim, mas é nunca se justifica, assim como a dramaturgia que carece de qualquer sofisticação; é como se o narrar ao invés de descrever fosse levado ao extremo.
Alaíde conta sobre os diversos preconceitos que sofreu – entre eles, como era mal vista a Bossa Nova por algumas pessoas que diziam que ela deveria cantar samba, exatamente por ser uma mulher negra. Mas ela nunca levou o menor jeito para o samba. O documentário não deixa de ser uma homenagem à resiliência, ao talento e à carreira da artista, mas poderia alçar voos mais altos – como ela.
