Uma coisa não se pode negar em relação ao italiano Diva Futura: a diretora e roteirista Giulia Louise Steigerwalt (de Sob o Sol da Toscana) é corajosa. Fazer um filme sobre a indústria pornográfica depois de Boogie Nights – Prazer sem Limites é um ato de bravura, mas, que, claramente, para por aí. Nas inevitáveis comparações, o italiano perde, e não é por pouco.
Apesar do tema fascinante, Steigerwalt, que também assina o roteiro, não consegue superar o tom leve e descompromissado com que conta a história de Riccardo Schicchi (Pietro Castellitto), magnata da indústria pornográfica italiana que descobriu estrelas como Cicciolina (Lidija Kordic) e Moana Pozzi (Denise Capezza), e fundou uma produtora chamada Diva Futura.
Sem qualquer distanciamento crítico ou um olhar mais aguçado, o filme vê Schicchi como uma figura legal, carinhosa até, um sonhador divertido que nunca saiu da adolescência. Sem trazer qualquer complexidade ao personagem e ao longa, a diretora faz uma hagiografia desse sujeito que explorou os corpos femininos até não poder mais – e vindo de uma mulher na direção, esse olhar condescendente é, no mínimo, frustrante.
Baseado no livro de memórias de Debora Attanasio (Barbara Ronchi), secretária do diretor e produtor, o filme empaca num olhar hipnotizado por um sujeito que não era lá uma pessoa muito idônea. O primeiro sucesso dele veio na transformação de sua namorada Ilona Staller em Cicciolina, uma jovem com espírito livre que não se importava em vender sua própria imagem. Depois que ela o troca pelo artista estadunidense Jeff Koons (autor de esculturas gigantes), Schicchi mergulha de vez na indústria adulta e lança diversas estrelas – sempre mulheres.
Moana foi uma de suas mais bem sucedidas criações, cuja imagem resiste até hoje, 32 anos depois de sua morte. O filme da Disney Moana, por exemplo, na Itália se chama Oceania, e a personagem Vaina, tudo para evitar qualquer confusão. Mas ele acaba se casando com outra estrela, Éva Henger (Tesa Litvan), a quem proibiu de fazer filmes.
Mas não é só com o retrato equivocado de Schicchi que Diva Futura erra. Quando Moana tenta se estabelecer como atriz de filmes não-pornográficos, ela é obrigada a fazer testes do sofá, e o que o filme tem a dizer sobre isso, de forma quase cômica, é como ela se divertia muito mais e era mais feliz sob a tutela de Schicchi.
Sem muitas ideias consistentes, e um viés romantizado, Diva Futura desperdiça a possibilidade de fazer um filme fascinante sobre um universo controverso. Steigerwalt prefere não cometer ousadias, e acaba realizando um longa incapaz de compreender que o dinheiro pode mover as pessoas mais do que o desejo.
