Maior sucesso comercial da carreira do diretor Cacá Diegues, com mais de 3 milhões de espectadores em 1976, Xica da Silva retorna aos cinemas numa versão em 4K, com suas cores resgatadas em pleno brilho, recontando a história da escrava que virou a cabeça do contratador de diamantes Antonio Fernandes (Walmor Chagas), vivida com êxtase pela incrível Zezé Motta.
Cinquenta anos após seu lançamento, em plena ditadura militar, o filme pode recolocar algumas das discussões da época, somando muitas outras. Afinal, continuam em questão temas como o protagonismo negro, a hiperssexualização do corpo feminino e os diversas aspectos do colonialismo e do autoritarismo - que o filme critica de maneira divertida, carnavalizada, antropofágica, deixando para trás a seriedade intelectual que caracteriza boa parte da produção do Cinema Novo, do qual Diegues foi um dos maiores expoentes.
Pode-se assistir ao filme sem pretender analisar nada disto. Afinal, Xica da Silva se basta como narrativa que pretende atingir mais os sentimentos do que a razão do espectador, como tão bem pontuou o crítico José Carlos Avellar. Pode-se, sem culpa, sucumbir ao irresistível fascínio desta escravizada, vivendo no Distrito Diamantino da segunda metade do século XVIII, que exercia seu poder de sedução para controlar os homens que supostamente eram seus donos: o sargento-mor (Rodolfo Arena), seu filho José (Stepan Nercessian) e depois o contratador Fernandes, que a compra, alforria e se torna seu amante.
Incorporando no filme diálogos e situações cômicas que se aproximavam do tom das chanchadas - gênero que o Cinema Novo criticou - mas temperando-os com um indiscutível viés crítico nas entrelinhas, Cacá transformou Xica da Silva numa metáfora da resistência que reside tanto no desejo quanto na arte. Um tema que podia ser considerado transgressor no auge da ditadura, defendido por figuras oprimidas, como os escravizados e as mulheres, e também pelos artistas. Ocupam várias sequências do filme cenas de festas, com figurinos que remetem aos desfiles de escolas de samba cariocas - inspiração assumida pelo diretor, que contou em entrevistas ter tido como uma de suas bases um desfile do Salgueiro, em 1963, que homenageava justamente Xica da Silva.
Esta liberdade diante dos fatos históricos - porque Xica e Fernandes existiram - e as muitas roupagens de que a arte pode revesti-los é uma característica central no filme, que devia atravessar, como todos, os caprichos da censura - que afinal encarou com naturalidade a nudez e as aventuras sexuais de Xica sem aperceber-se, certamente, do seu componente implícito de rebelião. Verdade que o enredo menciona de passagem uma revolta de fato, a Conjuração Mineira, que ocorria ali bem perto e da qual o jovem José será um participante e fugitivo, protegido por Xica.
Embalada pela trilha sonora envolvente de Jorge Ben Jor e Roberto Menescal, Xica da Silva pode render, também, uma discussão sobre contradições e hipocrisias dos próprios oprimidos quando ascendem socialmente - e Cacá não faz de Xica nenhuma santa. As ousadias sexuais e cenas de nudez, vistas pelo olhar de hoje, podem igualmente suscitar discussões sobre os limites da objetificação do corpo feminino diante das câmeras. De todo modo, Xica da Silva subsiste como um filme a ser visto, devorado, discutido. O que, 50 anos depois, não é para qualquer um.
