Abandonando radicalmente a figura do herói romântico que roubaria dos ricos para entregar riquezas aos pobres, A Morte de Robin Hood, de Michael Sarnoski, comete algumas ousadias e cria uma receita arriscada, pelo tom sombrio e melancólico e uma violência não raro bastante gráfica.
Aqui, Robin Hood (Hugh Jackman) é um assassino e ladrão envelhecido, vivendo isolado na floresta, fugindo de inúmeros inimigos, que vêm vingar-se dos crimes cometidos por ele contra seus familiares. Assumidamente, ele roubou e matou em proveito próprio, nunca para beneficiar ninguém. E agora, no outono da vida, parece apenas esperar a própria morte, que lhe parece que traria um enorme alívio.
Há uma indiscutível integridade nesta abordagem do diretor, que também assina o roteiro, assinalando uma preocupação ética que não passa necessariamente por uma redenção catártica, como nos tradicionais melodramas de Hollywood. Mas há uma inegável culpa nessa vida reclusa de Robin, que não raro equivale a um infindável ciclo de auto-expiação.
Nem por sentir-se culpado de seus crimes e desejar a morte significa que ele tenha abandonado a auto-preservação - o que é generosamente demonstrado no episódio que abre o filme, envolvendo uma andarilha (Jade Croot) que se aproxima de seu esconderijo.
Mas uma nova jornada de risco está à espera de Robin quando é encontrado por seu antigo comparsa, Little John (Bill Skarsgard), e por ele convencido a voltar à ativa para resgatar a mulher e a filha deste, que estão em poder de uma família que invadiu a terra onde viviam. O evento resulta em mortes, violência e graves ferimentos em Robin, que acaba acolhido num priorado, localizado numa ilha e dirigido pela irmã Brigid (Jodie Comer).
Nesse lugar, o filme localiza um pequeno ponto pacífico, à margem das disputas encarniçadas do século 13, em que a irmã acolhe feridos, doentes rejeitados, como um leproso (Murray Bartlett), e diversas crianças - à qual em breve se soma a pequena Margareth (Faith Delaney), a filha de Little John.
É difícil sustentar o tom sombrio tanto tempo e o diretor vale-se desse pequeno interlúdio no priorado para um bem-vindo respiro dentro da história, sem que a tensão seja de fato aliviada. Afinal, sabe-se que é iminente a chegada ali de sobreviventes do último enfrentamento de Robin e Little John, despertadas as suspeitas com a vinda de um outro ferido jovem e recém-chegado, Arthur (Noah Jupe).
Nesse mundo de masculinidade tóxica explícita, a figura de Brigid é não só um bálsamo como uma força de outra ordem, impregnada de decência, solidariedade, empatia e amor ao conhecimento, inclusive científico. E se o filme abre mão de um viés mais explicitamente romântico entre Robin e Brigid, não deixa de abrir um leque de opções igualmente interessantes, na medida em que fica nítido o interesse do desalentado Robin pelo futuro do priorado e também da menina Margareth - que vê nele uma espécie de figura paterna substituta.
Entre-se ou não neste clima, é fato que Sarnoski criou aqui um anti-heroi irresistivelmente honesto em toda a sua vasta coleção de defeitos, que Hugh Jackman abraça com valentia e dignidade. Jodie Comer, por sua vez, ocupa todo o amplo espectro das qualidades femininas nesta solitária personagem de mulher - que, aliás, foi inspirada numa figura real, da freira alemã Hildegard von Bingen, que foi escritora, filósofa e curandeira e viveu no século XII.
