05/08/2026
Documentário

Os Ruminantes

No final da década de 1960, o cineasta Luiz Sérgio Person tentou adaptar para o cinema o romance "A Hora dos Ruminantes", de José J. Veiga, chegando a escrever um roteiro com Jean-Claude Bernardet. Mas o projeto acabou não vingando. Esse documentário resgata o episódio. Nos cinemas.

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A adaptação de A Hora dos Ruminantes, de José J. Veiga, publicado em 1966, quase chegou aos cinemas pelas mãos do cineasta Luiz Sérgio Person. Seria feito logo depois de O Caso dos Irmãos Naves, de 1967, mas se tornou um sonho nunca concretizado na carreira do diretor, morto em 1976. 

Os Ruminantes, dirigido por Tarsila Araújo e Marcelo Mello, é um documentário que resgata a história desse filme que nunca existiu, embora seu roteiro tenha sido escrito, pelo diretor e Jean-Claude Bernardet. Combinando realismo e fantasia, a obra original figura um golpe político e resultaria, claramente, num filme sobre a ditadura brasileira e a opressão. 

Com depoimentos do próprio Bernardet, falecido em 2025, da cineasta Marina Person (filha de Luiz Sérgio), entre outros, o documentário resgata a trajetória do  possível filme, que ficou no papel, fazendo não só um retrato do cinema brasileiro e dos desafios de produzir cinema nos anos de 1960 e 1970, mas também um registro do Brasil daquela época, e das adversidades que cultura nacional enfrentava. 

Person chegou a ir para os EUA, com o sucesso de O Caso dos Irmãos Naves, na tentativa de conseguir um financiamento, mas sempre ouviu não, além de algumas sugestões sobre “fazer um filme sobre as belezas do Rio de Janeiro”. Mas quando a ditadura ficou sabendo da exibição em Nova York daquele filme que denunciava a tortura no Brasil, militares fizeram um lobby para que Person não conseguisse financiamento externo para seu longa. 

O longa, conforme imaginado pelo diretor, traria no elenco José Lewgoy, Juca de Oliveira, João Quincas, John Hebert, Fulvio Stefanini e até uma participação do José Mojica Marins, e deveria ser rodado na região do Vale do Ribeira, no sul do estado de São Paulo.

Bernardet conta que o roteiro estava pronto para ser filmado e, segundo o próprio Person, a ideia não era para ser apenas divertimento, mas deveria se comunicar com o público, com o povo. E isso vai ao encontro das principais críticas do cineasta ao Cinema Novo, que, para ele, era hermético e para intelectuais. 

Os desdobramentos que seguem quando o filme não foi feito estão ligados à repressão, mas, também, a coincidências inusitadas. Segundo depoimentos feitos no DOI-CODI, que muitas vezes não são confiáveis, dadas as circunstâncias em que foram colhidos, negativos coloridos que seriam usados em A Hora dos Ruminantes foram desviados e acabaram chegando a Rogério Sganzerla, que, supostamente, os utilizou em O Bandido da Luz Vermelha

Ao invés da adaptação de Veiga, Person acabou fazendo Panca de Valente, que, para ele, “foi um fracasso total, artístico e comercial”. Ele ficou tão desgostoso com isso que até abandonou o cinema, indo trabalhar com publicidade. Como se sabe, o diretor ainda voltou ao cinema, tentou conseguir financiamento para retomar A Hora dos Ruminantes, o que nunca aconteceu. Outros cineastas também tentaram fazer o filme, igualmente sem sucesso.

A maneira como o documentário busca sempre a interligação entre política e cultura é muito interessante. E, ao final, resta apenas a imaginação de como seria o longa se Person tivesse conseguido materializar seu sonho. 

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