É com a mais franca sinceridade que o documentário Nem tudo é paz e amor investiga as heranças da geração do amor livre, e nisso reside a força do documentário de Betão Aguiar sobre os primogênitos e primogênitas de ícones da contracultura brasileira. O diretor próprio é um deles, e, a falar com conhecimento de causa, sabe bem os caminhos pelos quais guiar seu longa.
Transitando entre memórias pessoais e coletivas, Aguiar questiona as consequências de infâncias sem limite e, um tanto, sob os holofotes. Filho da escritora e produtora Marília Aguiar e de Paulinho Boca de Cantor, o dietor começa o filme consigo mesmo – na verdade, com seus pais, e os depoimentos de sua mãe, em especial, são reveladores.
Ela e Helena Ignez trazem a dimensão concreta das ideologias que liberdades irresritas em que acreditavam, ainda assim, esbarravam em estruturas sociais de privilégios e precoceitos. Helena mesma conta que seu primeiro marido, Glauber Rocha, entrou na justica para conseguir a guarda da filha do casal, Paloma Rocha.
Ainda assim, tanto ela, quanto Marília, são enfáticas e não se arrependem das escolhas que fizeram nas juventudes, mas questionam-se se foram as melhores para as crianças na época em que eram pequenas. As entrevistadas e o entrevistado concordam com essa dúvida. Não são poucas as vezes que aparecem nos depoimentos um questionamento por não poderem ter tido uma infância, dita, normal, com horários e regras que ajudam no amadurecimento das crianças.
Sarah Sheeva, por exemplo, tem algumas das falas mais ponderadas do longa a respeito desse assunto. Começa pelo seu nome de batismo, Riroca, que lhe dava problemas na escola. Foi sua mãe, Baby do Brasil, que percebeu alguns anos depois que a escolha não foi muito boa. Esse é só um exemplo do que a prole do pessoal da contracultura brasileira teve de lidar.
Figuras como Moreno Veloso, Nara Gil, Beto Lee, Anelis Assumpção e Ciça Moraes se abrem diante da câmera sem qualquer ressentimento resgatando histórias de suas infâncias narradas com riqueza de detalhes e humor. Claramente, Aguiar e seu filme não tem a menor intenção de demonizar os pais e mães, pelo contrário, é mostrar que a criação marcada pela liberdade resultou em mais acertos do que erros. Para usar a linguagem da geração da contracultura, nenhum deles ou delas encaretou totalmente. Sheeva pode até ser uma pastora evangélica (num dos momentos do filme, aparece realizand um culto num cinema em São Paulo), mas o que diz sobre amor e compreensão mútua é bastante progressista.
Mas, se houver algum arrependimento, por parte dos filhos e filhas, Marília tem uma fala bastante sagaz sobre isso. Como ela diz, ninguém sofreu, passou necessidades, não são sobreviventes, por assim dizer. São frutos de privilégios, afinal, para se levar um estilo de vida alternativo, era preciso certo privilégio econômico. E, nesse sentido, o filme tem os pés no chão, o que faz dele ainda mais instigante.
