Karim Aïnouz, o diretor brasileiro de Motel Destino e A Vida Invisível, desembarcou na competição berlinense em fevereiro de 2026 com a segunda produção internacional de sua carreira, Rosebush Pruning. Falado em inglês, o drama ostenta no elenco alguns dos mais promissores jovens atores do mundo - caso de Callum Turner, Jamie Bell, Elle Fanning, Lukas Gage e Riley Keough - ao lado de veteranos classudos como Tracy Letts, Elena Anaya e a surpreendente Pamela Anderson, num papel que muda radicalmente a imagem de uma atriz que, na juventude, ficou famosa como coelhinha da revista Playboy e estrela da série Baywatch SOS Malibu (1989) .
A inspiração da história, que retrata a destruição de uma rica família norte-americana, radicada na Catalunha, veio de De Punhos Cerrados (1965), o drama de estreia do premiado italiano Marco Bellocchio. Mas não se trata de nenhum remake. Como comentou na coletiva em Berlim, Karim queria fazer um filme sobre família. Ainda na pandemia, surgiu esse contato com Bellocchio e a ideia de desenvolver um novo enredo a partir do filme de 1965, que o diretor brasileiro reviu várias vezes.
Os dois cineastas mantiveram contato via Zoom e Bellocchio deu várias sugestões - como mudar o sexo de uma das personagens da família, o que permitiu a Karim falar mais do patriarcado. Entrou na jogada o roteirista grego Efthymis Filipou, parceiro habitual de Yorgos Lanthimos em títulos como A Lagosta e O Sacrifício de um Cervo Sagrado, inserindo no enredo elementos mais contundentes de sexo e violência em relação ao original.
O resultado é o retrato de uma família altamente disfuncional, formada por personagens infantilizados, os quatro irmãos, Ed (Callum Turner), Jack (Jamie Bell), Anna (Riley Keough) e Robert (Lukas Gage), gravitando em torno de um delirante patriarca cego (Tracy Letts), num ambiente incestuoso, sobre o qual paira a sombra de uma mãe desaparecida (Pamela Anderson) - em cujo túmulo, numa floresta repleta de lobos, os irmãos desempenham anualmente um macabro ritual.
Esse ambiente claustrofóbico e de interdependência extrema, seja econômica, seja emocional, governa-se pela indolência, já que nenhum deles precisa de trabalhar ou se interessa por qualquer atividade criativa. Esse equilíbrio doentio é rompido com a chegada de Martha (Elle Fanning), a nova namorada de Ed, com quem ele pretende ir morar, fora da mansão familiar. O próprio tratamento cruel à novata, quando é apresentada à família num almoço, denota o grau de crueldade mental dessa família, que só tende a agravar-se diante da total falta de limites ou ideais.
Pode-se ler Rosebush Pruning - numa tradução literal, a “poda da roseira” - também como uma alegoria politica, uma leitura de um mundo governado por elites brancas e indolentes, que finalmente se entredevoram em suas paixões doentias, numa voraz pulsão de morte que, finalmente, as consome também. Um aspecto político, aliás, muito presente já desde a inspiração original de De Punhos Cerrados.
As cores fortes da diretora de fotografia francesa Hélène Louvart, parceira de Karim em filmes como A Vida Invisível (2019) e Motel Destino (2024), formam a moldura ideal desta crônica de pulsões desenfreadas, que o elenco conduz com afinco, empenho e uma ironia nunca menos do que sinistra.
Veja no canal do Cineweb no YouTube a entrevista de Karim Aïnouz, concedida no Festival de Berlim
