É difícil segurar o fôlego ao assistir este documentário, vencedor do Prêmio Especial do Júri no Festival de Veneza, assinado por Yuval Abraham e Rachel Szor - dupla de diretores que co-dirigiu o vencedor ao Oscar em 2025 Sem Chão (No Other Land).
Judeus israelenses, Yuval e Rachel expõem a verdadeira máquina de desumanização das forças militares de seu país, comandando o permanente massacre de Gaza que se seguiu ao fatídico 7 de outubro de 2023. Naquele dia, militantes do Hamas cruzaram a fronteira israelense, causando, segundo Israel, 1200 mortes, sendo 900 civis. A resposta israelense não parou mais desde então, custando, até agora, cerca de 70.000 vidas palestinas, boa parte delas de civis, muitas mulheres e crianças, vários jornalistas e membros de equipes de socorro de saúde.
Resguardando a identidade de seus entrevistados, 24 membros da inteligência militar israelense, ouvidos na penumbra de terraços de Tel-Aviv, os diretores coletam depoimentos que detalham o funcionamento de uma engrenagem tecnologicamente sofisticada a serviço da missão de eliminar o máximo possível de palestinos. Não é exagero. Há um projeto deliberado em curso.
Um dos entrevistados detalha o Lavender, programa de IA que controla a localização de milhares de telefones em Gaza, identificando os possíveis membros do Hamas através de programas que cruzam determinadas variáveis. Ao localizar estes alvos, permite matá-los onde estejam, ainda que isso custe vítimas inocentes - são elas os “naza”, ou seja danos colaterais, cujas mortes nunca são lamentadas pelas forças israelenses. Segundo os militares, isto é parte de sua missão.
A própria escolha do horário dos bombardeios a prédios de Gaza, preferencialmente à noite, foi decidida em função da maior probabilidade de sucesso na morte de seus alvos, ainda que isso custe também a vida de suas famílias. Mesmo que se trate de bebês ou crianças, cujas fotos e sons chegam até os soldados que os têm na mira de suas câmeras, drones ou qualquer outro equipamento de vigilância.
Também se despreza a margem de erro - uma das fontes admite que cerca de 15% dos supostos membros do Hamas não pertencem realmente ao grupo resistente palestino, ou haviam deixado há muito de integrá-lo. O conhecimento desta falha não acarreta nenhuma possibilidade de punição. Todos os soldados são convencidos de que estão cumprindo sua missão, ainda que se trate de atirar em civis desarmados que procuram alcançar fontes de distribuição de alimentos, como relata um deles.
Entre os detalhes mórbidos, a descrição de um soldado de que os corpos destas vítimas não são recolhidos. Eles mesmos assistem, eventualmente, que sejam devorados por cachorros.
A consciência de que um limite moral foi ultrapassado emerge na fala de um depoente, que comenta que, quando adolescente, foi à Polônia, onde se localizam alguns campos de concentração da II Guerra, e que então não conseguia entender os alemães daquele tempo, para ele, a própria encarnação do mal. Em seguida, admite que agora entende - porque realizou ações semelhantes às deles.
Outra face desta máquina de genocídio reside numa ação de sabotagem diplomática, realizada por um grupo conhecido nos bastidores como “o departamento de Bibi” (o apelido do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu). Membros deste grupo encarregam-se de procurar desmoralizar palestinos que denunciam violências no exterior, inclusive expondo publicamente seus casos extraconjugais. Um deles conta que várias vezes tiveram sucesso com esta estratégia.
Entrevistando suas fontes à noite, Yuval e Rachel recorrem também a imagens da vida cotidiana da capital, vistas de longe. Ver estas pessoas em seus apartamentos, assistindo televisão, jantando ou brincando com seus filhos fornece, de imediato, imagens que remetem às das casas palestinas bombardeadas à noite por estes soldados, que recontam seus atos com um misto de frieza, culpa contida e uma relativa inconsciência do peso que isso terá em suas vidas futuras. Tudo isso somado à terrível constatação de que o genocídio palestino, um termo que mesmo alguns dos militares admitem, continua sem trégua - como nos lembra a lancinante sequência final de um bombardeio.
