22/10/2026
Drama Fantasia

Ao Sabor das Cinzas

Após a morte de Seu Lauro, suas duas filhas adultas disputam onde irão enterrar o pai. Enquanto isso, o fantasma dele trava uma conversa com uma jovem que está de carona no carro que transporta o corpo, e a neta dele prepara uma revelação bombástica sobre o passado do homem.

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Se o título Elite Devassa já não tivesse sido usado no filme de 1984, o cineasta Taciano Valério poderia tê-lo usado, ao invés de Ao Sabor das Cinzas. Ou seja, não é nenhuma novidade dizer que a elite brasileira é corrupta e pútrida, e aí está o maior problema deste longa – dizer o óbvio.

Para isso, vai lá ao século XIX, pegando inspiração em Memórias Póstumas de Brás Cubas com um morto que mesmo morto serve como ponto de vista, assim revelando as baixezas da classe alta. Ou seja, nada de novo até aqui. O falecido, no caso, é seu Lauro (Everaldo Pontes), patriarca de uma rica família paraibana, cujas filhas (Verônica Cavalcanti e Maria Lima) entram em disputa pelo enterro dele. Enquanto o corpo é transportado de uma cidade para outra, ele nu “volta à vida”, e conversa com uma jovem que está no carro do IML que o transporta. 

Ao mesmo tempo, a neta dele (Isadora Gibson) prepara um material bombástico revelando segredos horríveis de sua família. Coincidentemente, o avô realizou atos escusos muito parecidos com coisas que aconteceram no cenário político nacional recentemente. 

Mas quando isso vem à tona, o filme se coloca num lugar complicado. Por que, até então, seu Lauro é pintado como um sujeito simpático, um bom malandro, quase um herói que voltou do além? É um nó narrativo que Ao Sabor das Cinzas é incapaz de resolver, apoiando-se demais apenas em seu retrato previsível dos ricos para apontar o que há de errado no país. Para usar uma expressão do filósofo brasileiro Paulo Arantes, o filme arromba uma porta aberta. 

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