04/11/2026
Drama Ficção científica

Klara e o sol

Klara, como os outros IAs de uma loja, sonha em ser comprada e ir morar com uma família. Quando uma adolescente se encanta por ela, seu sonho se realiza, e ela vai ver numa casa cheia de problemas.

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O Nobel em Literatura de 2017, o nipo-britânico Kazuo Ishiguro, havia dado sorte com as adaptações cinematográficas de sua obra até agora. Os vestígios do dia e Não me abandone jamais são filmes excelentes marcados pela visão autoral de seus diretores capazes de conjurar cinematograficamente a literatura do escritor. Mas não é bem isso que ocorre no desastroso Klara e o Sol, adaptado do primeiro romance que o autor lançou após o prêmio, em 2021. 

O livro já não é exatamente o melhor da obra de Ishiguro, mas há nele coisas boas, ao contrário do filme dirigido por Taika Waititi, que já apresenta, logo de cara, problemas com o tom. Incapaz de se decidir se é uma comédia, um drama ou uma ficção-científica. Atira para todo lado, não acerta um alvo e se contenta com um colorido de loja de doces que não faz o menor sentido. 

Jenna Ortega é a Klara do título, uma androide que faz parte de uma geração conhecida como Amigos Artificiais, um tanto defasada, e novos modelos são mais procurados. Todos os dias a gerente (Natasha Lyonne) da loja onde ela vive com seus amigos espera que uma boa alma entre ali e compre algum dos androides. E esse dia acontece quando a adolescente Josie (Mia Tharia) insiste que sua mãe compre Klara. A mulher, Chrissy (Amy Adams), é resistente mas acaba cedendo.

Não há aqui o mesmo humanismo que Steven Spielberg injetou em seu A.I. - Inteligência Artificial, nem a elegância com que Mark Romanek conduziu seu Não me abandone jamais, um livro, aliás, que forma um díptico com Klara e o Sol na bibliografia de Ishiguro, questionando o que é ser humano diante de avanços quase incompreensíveis da tecnologia. 

Waititi, conhecido por seus filmes da franquia Thor e Jojo Rabbit, jamais seria a melhor opção para dirigir uma adaptação de Ishiguro. Suas visões de mundo são diametralmente opostas. O cineasta pensa no pueril colorido e num deslocado kitsch, enquanto o escritor é uma espécie de cronista da melancolia. Dessa combinação não nasce um embate frutífero mas uma espécie de disputa formal que mina o filme completamente.

Independente do post birrento que Waititi fez recentemente no seu Instagram culpando os críticos pelo fracasso do filme nos EUA – tanto que a Sony pouco apostou em seu lançamento, e deixou que morresse de uma semana para outra –, Klara e o Sol é um filme equivocado com atuações embaraçosas , em especial de Adams sorumbática no papel da mãe, que mantém uma relação complexa com Klara.

Josie logo encontra na androide a melhor amiga que nunca teve entre as humanas. Uma cena de festa com adolescentes esnobes vestindo figurinos supostamente futuristas (na visão de Waititi) é particularmente constrangente na maneira como o filme lida com as relações entre pessoas e entre pessoas e robôs. 

Removendo nuance das personagens e das situações, o longa se afunda em sua frieza que tenta ser encoberta com um humor desconectado do bom senso. A ingenuidade de Klara era para ser terna, mas soa ridicularizada a todo momento. Ela acredita que o Sol (que lhe traz energia, afinal ela é movida a energia solar) vive num celeiro que ela vê de sua janela. Podia ser algo melancolicamente delicado, mas nas mãos de Waititi é ridiculamente risível.  

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