04/06/2026

“Fome de Bola” disseca a relação entre cinema e futebol no Brasil

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Ao longo dos anos, o cinema e o futebol fizeram uma inversão curiosa. O primeiro, quando surgiu, era uma atividade extremamente popular e barata, que fazia a alegria dos mais pobres. Já o esporte surgiu como um passatempo elitista e, ao longo dos anos, foi caindo no gosto popular, como mostra o crítico de cinema e jornalista de O Estado de S. Paulo, Luiz Zanin Oricchio, em seu livro Fome de Bola – Cinema e Futebol no Brasil (484 páginas), que faz parte da Coleção Aplauso, editada pela Imprensa Oficial.

Nessa obra, o jornalista disseca a relação entre o cinema e o esporte por aqui, onde os dois parecem se aproximar e se afastar ao longo dos anos. Uma vez que o Brasil é o chamado "país do futebol", não deixa de ser curioso que pareçam existir poucos filmes sobre o assunto. Em uma entrevista feita para a publicação, o cineasta João Moreira Salles (que co-dirigiu a trilogia de documentários Futebol, de 98) brincou que ‘é como fazer um livro extraordinário sobre as escolas de samba de Tóquio’. Mas não é bem assim. Zanin mostra que há bastante cinema sobre futebol no Brasil – e a gente não tinha se dado conta disso.

Com em sua coluna semanal no jornal O Estado de S. Paulo, o jornalista sempre busca o que há de humano por trás dos passes, dos dribles, dos gritos da torcida, dando ênfase na paixão que nutre boleiros do mundo todo – mas sem deixar de lado a técnica que faz a alegria daqueles que vibram nas arquibancadas e aquilo que se chama de ‘futebol-arte’. No livro não é diferente, com o acréscimo da arte cinematográfica ao tema. Zanin, um torcedor confesso do Santos, usa uma linguagem clara, precisa e poética, que consegue se comunicar mesmo com aqueles que não sabem a diferença entre tiro de meta e cobrança de lateral.

Ao longo de Fome de Bola fazemos uma viagem pela história e cultura popular brasileira, desde o nascimento do futebol e do cinema no final do século XIX até a atualidade, tendo como força motriz a bola que rola nos gramados e as imagens que brilham nas telas. Como não podia deixar de ser, o livro não se restringe apenas a essa abordagem. O jornalista faz um paralelo entre futebol e política, que resultou em diversos filmes que exploram essa relação muitas vezes sutil, como é o caso de Pra Frente Brasil (1980), de Roberto Farias, e da comédia Casseta & Planeta - A Taça do Mundo É Nossa (03), de Lula Buarque de Hollanda.

A paixão santista fala mais alto e o lado jornalísta do escritor parece descansar no banco quando o tema é Pelé e também o documentário Pelé Eterno (03), de Aníbal Massaini Filho. O sorriso que se estampa no rosto do escritor nas suas fotos enquanto entrevista o Rei em parte explica essa omissão. A entrevista, aliás, de mais de 30 páginas, faz um apanhado não só da carreira do jogador, mas também de filmes sobre ele e da situação do futebol brasileiro na atualidade.

No seu ‘Segundo Tempo’, o livro reúne diversas entrevistas com Pelé e gente de cinema, como o notório palmeirense Ugo Giorgetti, diretor de Boleiros (1998) e sua seqüência (06), e o cineasta Djalma Limongi Batista, de Asa Branca – Um Sonho Brasileiro (81). Fome de Bola é concluído com uma extensa lista de filmes (longas, médias e curtas) brasileiros que têm alguma relação com futebol. E embora todo mundo se lembre dos mais recentes, como O Casamento de Romeu & Julieta (05) e Ginga (06), vai ser uma surpresa para muitos que um dos primeiros filmes brasileiros sobre o assunto tenha sido um curta de 1907 chamado Entrega das Taças aos Campeões Paulistas de Futebol. E a relação de filmes brasileiros tem cerca de cem páginas – e só tende a crescer. Ainda não se sabe muito sobre as escolas de samba de Tóquio, mas os filmes brasileiros sobre futebol resultaram num livro ótimo.

Fome de Bola pode ser encontrado em livrarias, bancas de jornais e locadoras ou no site da Imprensa Oficial, http://lojavirtual.imprensaoficial.com.br/ . O preço sugerido é de R$ 9,00.

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