13/06/2026

Fotos do cinema italiano em exposição em SP

Enquanto a Fotografia em sua expressão artística e processo artesanal tem seu reino ameaçado pela abundância das câmeras digitais e o imediatismo da revelação, uma pequena jóia incrustada na Avenida Paulista, em São Paulo se impõe com elegância através dos emblemáticos registros de Tazio Secchiaroli , fotógrafo italiano que eternizou a efervescência cultural e cinematográfica da Roma dos anos 60.

Com o título de O cinema no olhar, a exposição sediada pela Caixa Cultural abrange 30 anos de fotojornalismo descortinando uma sociedade que florescia no recente pós-guerra que o cinema italiano se encarregaria de registrar, deixando obras-primas que ainda hoje são revisitadas em ciclos permanentes.

Inicialmente um fotógrafo ambulante, Secchiaroli galga pouco a pouco os degraus do aperfeiçoamento em sua profissão tornando-se não apenas fotojornalista como o cronista de uma época em que o Cinema reunia uma constelação de talentos como Federico Fellini, Pier Paolo Pasolini, Michelangelo Antonioni ,Lucchino Visconti, Sofia Loren, Marcello Mastroianni, Anna Magnani, Silvana Mangano entre outros ícones como Marlon Brando, Clint Eastwood ,Claudia Cardinale, David Niven, Gina Lollobrigida, Gregory Peck, Vanessa Redgrave.

Percorrendo a cidade (de Roma) em busca de flagrantes inéditos das chamadas “celebridades”, Secchiaroli capta momentos e recolhe histórias que serviriam de inspiração a ninguém menos do que Federico Fellini em seu filme A Doce Vida, em que começa-se a incorporar na cena cotidiana a figura do paparazzo.

A exposição encarrega-se de propôr um contraponto à fotografia digital, sem negar seus méritos, uma vez que nos dias de hoje inúmeras são as opções artísticas a partir das câmeras digitais seja em fotografia como em cinema ou vídeo. Entretanto, o processo manual de revelação, o enquadramento e a espontaneidade captada no objeto fotografado, sem pose ou numa pose de não- pose, onde aparência e essência se podem fundir, fazem parte de uma realidade a cada dia mais distante.Basta dizer que raros são os pontos de venda de rolos de filme ditos convencionais.

Visualiza-se ao percorrer a exposição o momento em que a foto foi tirada. A imaginação do visitante extravasa sua fantasia e a magia se estabelece auxiliada pela própria iluminação do local, as fotos em preto e branco e um slideshow no andar superior que completa a viagem que pode durar horas nesse universo que invariavelmente desperta o desejo de, ao sair da exposição, assistir a um bom filme (ainda que seja por pura evasão ou reencontro com nossos ídolos de juventude.) Como não sucumbir a uma foto de Sofia Loren dirigida por Vittorio de Sica em Matrimonio à Italiana de 1964, na plenitude de seu talento, ou contracenando com Gregory Peck em Arabesque (1966) para depois placidamente descansar encostada em seu marido Carlo Ponti (recém-falecido). Diretores como Eduardo de Filippo, Michelangelo Antonioni, Federico Fellini Vittorio de Sica, o dramaturgo americano Tennessee Williams e Anna Magnani em plena Via Veneto, símbolo supremo da sofisticação romana nas décadas de 50 e 60, Gina Lollobrigida em Un Bellissimo Novembre , de Mauro Bolognini(1969), Charles Chaplin , diretor de A Condessa de Hong Kong (1967) com Sofia Loren e Marlon Brando, Maria Callas em Medeia com direção de Pier Paolo Pasolini(1970) são algumas das preciosidades retratadas por Secchiaroli, falecido em 1998 aos 73 anos após uma vida extremamente rica a serviço da arte de perpetuar instantes únicos, intransferíveis, (que não se repetem ainda que com meses de ensaios, porque são a manifestação de um sentimento real, espontâneo e irreprodutível.)

Como nos mostra o filósofo e semiólogo francês Roland Barthes em A Câmara Clara, as fotos que mais lhe interessam são aquelas que lhe provocam emoção. Muitas vezes é um detalhe que o arrebata, não necessariamente a composição de um contexto, uma paisagem, uma situação mas o que lhe rendeu uma experiência irreversível emocionalmente. O não-dito é muitas vezes mais eloqüente do que o verbal.

Assim, a exposição de Secchiaroli extrapola o amor pelo cinema e penetra na essência do que alimenta o cinema: o elemento humano, em sua força e seu despojamento, em sua entrega e fragilidade. Um momento de intimidade que todos nós espectadores já imaginamos em incontáveis ocasiões, ou um flagrante de direção em que os olhares entre diretor e ator bastam para que uma comunicação transcendente se estabeleça e se realize a criação artística.

Serviço: Tazio Secchiaroli, o cinema no olhar. Caixa Cultural São Paulo. Galeria da Paulista. Av.Paulista 2083. Segunda a sábado das 10 às 20h. Domingo das 12 às 21 h. Exposição prorrogada até 25 de fevereiro de 2007.

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