08/06/2026

Institucional do cinema brasileiro passa
por um momento difícil

Do Filme B

A aparente indefinição dos rumos da BR como fomentadora cultural deixou cineastas e produtores em estado de alerta na semana passada. A distribuidora da Petrobras, que investiu maciçamente no cinema brasileiro nos últimos anos, estava mantendo um assustador silêncio sobre suas intenções - o que gerou uma grande onda de boatos.Paralelamente, as indefinições em relação ao rumo da Ancine também geraram muita apreensão, a ponto de se temer uma nova paralisação da atividade.

Apesar de o jornal "O Estado de S. Paulo" ter dado como certo, no último sábado (15/3), que a Ancine ficaria sob os auspícios do Ministério da Cultura, o secretário do Audiovisual, Orlando Senna, garante que nada foi definido ainda. "Estão chegando muitas opiniões diferentes, de cineastas e de produtores. O que sei é que, em função de novos fatores, como a reestruturação do ministério da Cultura, o setor está reestudando uma decisão que jáhavia sido tomada", disse Orlando.

A probabilidade da Ancine não se vincular ao Ministério do Desenvolvimento, como estavaprogramado, é maior agora que o ministro Gilberto Gil disse estar "de braços abertos" para a Ancine, enquanto o ministro do Desenvolvimento, Luiz Eduardo Furlan, não demonstrou muito interesse na atividade. Gil também deverá criar uma Agência de Fomento, que concentraria as formas de captação de recursos para a cultura - e que certamente mexeriacom as atribuições da Ancine. Uma reunião entre o ministro chefe da Casa Civil, José Dirceu, e mais Furlan e Gil, foi transferida da sexta-feira passada para a próxima quinta (20/3).

NINGUÉM FICARÁ A PÉ - Em relação à BR, o jornal "O Globo" de segunda-feira trouxe algumas declarações tranqüilizadoras: "Não vamos deixar ninguém a pé", afirmou Sérgio Bandeira de Mello, novo gerente de marketing e comunicação da empresa. "Queremos não apenas patrocinar, mas atuar em todo o processo: produção, lançamento, exibição, distribuição", disse José Jacinto Amaral, assessor da diretoria de comunicação da área de patrocínio da Petrobras.

A maior queixa da classe cinematográfica não era propriamente em relação às mudanças, mas à falta de diálogo - uma tendência que, ao que parece, começou a se reverter. Já se sabe, também, que a nova diretoria da BR não vai desistir do investimento emcultura, reconhecendo o ganho de imagem da empresa nesses anos de apoio ao cinema brasileiro.

Muitos profissionais do cinema, porém, ainda temem que a simples obrigação da mudança possa significar retrocessos, principalmente num time que vinha ganhando. Boa parte do setor lamentou a saída de Elenora Salim, diretora de marketing da BR, funcionária de carreira com mais de 30 anos de casa, que foi o braço direito do ex-presidente Luiz Fernando Viana, responsável pela transformação do cinema em ponta de lança da imagem da empresa. Foi graças a ela, pelo menos em parte, que a BR encampou projetos da envergadura do Festival do Rio, do cine Odeon, do Grande Prêmio Cinema Brasil, do Cineem Movimento. O Grande Prêmio, por exemplo, inicialmente marcado para maio, foi adiado. A Academia Brasileira de Cinema está começando a estudar novas formas de viabilizar a festa, com um novo patrocinador.

FESTIVAL DO RIO - Na próxima quinta-feira, a nova equipe de marketing da BR se reúne para analisar o projeto do Festival do Rio, que teve seu contrato trienal encerrado ano passado. Não custa lembrar que o festival conseguiu excelentes resultados de programação e convidados porque não precisou se preocupar com patrocínio por três anos seguidos.

São fortes os boatos de que a BR não reverterá mais parte de sua verba de publicidade para o marketing cultural, uma política implantada por Viana. O ex-presidente da BR via mais sentido em ver o nome da empresa associado a um bom filme ou a um grande evento como o Festival do Rio do que anunciar lata de óleo na televisão. Se esse fato se confirmar, a verba da BR para a cultura já estaria reduzida em pelo menos 1/3. Outro fato certo é que aBR e a Petrobras vão concentrar suas ações de marketing, o que deve pelo menos acabar com a ciumeira entre as duas empresas nessa área. Nesse momento, vários projetos estão sendo avaliados depois de terem sido reelaborados, com a inclusão de alguma forma de contrapartida social, exigência do governo PT.

Cineweb-18/3/2003-19.31

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