18/06/2026

Personagens de "Saneamento Básico" inspiram-se na Commedia dell'Arte

O bem-sucedido lançamento do excelente Saneamento Básico, a mais recente obra do gaúcho Jorge Furtado, despertou o interesse do público de aprofundar seu conhecimento sobre a Commedia dell´Arte, uma vez que o diretor optou pelo gênero ao elaborar o perfil dos personagens desenvolvidos no filme.

O surgimento da Commedia dell´Arte na Itália no século 16 - seu auge tendo sido o século 18 - vem constituir a resposta e o contraponto de um teatro popular ao teatro acadêmico, erudito, sustentado pelas cortes européias, aprovado pela Igreja, elitizado e destinado a perpetuar uma hierarquia que excluía as grandes massas e os atores oriundos das camadas populares. Ela nasce da necessidade que sentia o povo de expressar seus anseios e lutas cotidianas, bem como sua crítica social e a opressão imposta pela fome aos menos favorecidos desde a Idade Média.

Praças públicas, ruas e mercados são os novos palcos, por assim dizer, onde os atores com figurinos vistosos, chapéus gigantescos, máscaras e instrumentos musicais improvisavam as tramas mais mirabolantes para deleite dos transeuntes, que pouco a pouco paravam seus afazeres para apreciar a nova manifestação artística que em breve se estabeleceria como um gênero teatral imortalizado através de personagens tão célebres quanto amados do grande público, como os servos (ou zanni) Arlequim, Brighella, Pantaleão, Capitão Fracassa, Pulcinella , o Doutor, Colombina, entre outros. Alguns apresentavam variações de linguagem, uma vez que as províncias italianas possuíam dialetos antes da unificação do país, realizada em 1870, sendo comum que a ação fosse representada através de mímica e acrobacias.

A apropriação do espaço ao ar livre adquire um contorno cada vez mais profissional, assim como a incorporação de atrizes, até então proibidas pelo poder vigente de atuar nas companhias oficiais de teatro. A presença da mulher nas companhias é por si só uma reviravolta nas convenções teatrais, tornando-se cada vez mais estável.Até essa época, em cena via-se homens travestidos representando personagens femininos. Reza a lenda que a primeira atriz a fazer parte de uma trupe de atores foi Lucrezia, da cidade de Siena que em 1564 participou de uma representação em Roma.

Também conhecida como commedia a soggetto (comédia de tema), commedia buffonesca, commedia all improviso e commedia all´italiana, a Commedia dell´Arte permite que os atores comecem a se profissionalizar e a viver de sua arte.

O Renascimento Italiano assistia ao florescimento das artes visuais da arquitetura, das artes cênicas, da música e da ópera. O teatro começa a se libertar do jugo da Igreja, o que favorece a liberdade de criação de um gênero como a Commedia dell´Arte, a partir da segunda metade do século 16, incorporando a influência do carnaval de Veneza.

Alguns filmes, como o antológico Boulevard do crime (Les Enfants du Paradis, 1945), de Marcel Carné - em que o mímico Baptiste, encarnado pelo inesquecível Jean-Louis Barrault, arrebata a platéia -, ou Il Viaggio del Capitano Fracassa (1990), de Ettore Scola, com o igualmente esplêndido ator Massimo Troisi, conseguiram traduzir as inovações trazidas pelo teatro de rua e o nomadismo das companhias surgidas com a formação de trupes, em geral de uma dezena de atores.

A Commedia dell´Arte se caracteriza basicamente pela improvisação, a criação coletiva e ausência de um texto preestabelecido.Os chamados canovacci são roteiros a partir dos quais cada ator irá improvisar seu texto, de acordo com os atributos específicos de seu personagem. Há indicações de entradas e saídas de cena e mudanças inesperadas . Os atores representavam sempre os mesmos personagens. São os chamados “tipos fixos”, arquétipos das qualidades e defeitos humanos. Cada personagem,com exceção dos apaixonados, possui uma máscara que cobre metade do rosto, de modo que se pode ver a boca do ator, sendo a linguagem corporal um importante complemento na evolução da ação dramática.

Arlequim por exemplo, é o personagem que jamais faltará a um canovaccio. Foi imortalizado pelo ator italiano Ferruccio Soleri, dirigido pelo falecido Giorgio Strehler, este o fundador, com Paolo Grassi, do Piccolo Teatro de Milão. Soleri vem interpretando Arlequim há várias décadas, tendo se apresentado em incontáveis palcos, inclusive o do Teatro Municipal de São Paulo, em cenário à luz de velas, em inesquecível montagem.

As cores das máscaras variavam. Estampas diversas para Arlequim, verde e branco para Brighella, preto e branco para Pulcinella, preto para o Doutor e vermelho para Pantaleão por exemplo.

Em todos os casos, seja qual for a trama, seja o poder militar ou o do patrão, é criticado e ridicularizado como o Capitão, representante do poder militar que profere textos exagerados, prolixos; ou Pantaleão, o dono da casa que humilha e explora seus servos, como Arlequim e Brighella, com textos que o tornam vil e desfrutável; ou até mesmo o Doutor, representante da ciência, em seqüências sem nexo que arrancam da platéia o riso escancarado - como por exemplo o personagem de Lázaro Ramos, em Saneamento Básico, desprovido de qualquer tipo de conhecimento sobre os assuntos mais triviais, convencido de que é um grande erudito e conhecedor da arte cinematográfica.

Os personagens da Commedia dell´Arte seguiam um padrão. Os enamorados e seus desencontros, as intrigas para separá-los, os velhos , os servos (zanni), todos garantiam o sucesso nas multidões, uma vez que estas reconheciam os tipos sociais com que estavam familiarizadas, promovendo a empatia com o público.

A.cada personagem do filme de Furtado corresponde um arquétipo da Commedia dell´Arte, gênero que o diretor teve que estudar para a elaboração do filme. Não por acaso, as locações situam-se numa região de colonização italiana, esta representada pelos personagens de Paulo José e Tonico Pereira, amigos de longa data e apaixonados por ópera. A obstinação de um e o desânimo de outro fazem o contraponto realista com os devaneios dos personagens de Fernanda Torres e Wagner Moura, empenhados em realizar um vídeo de ficção para denunciar o descaso das autoridades locais - e justificar a verba do governo federal. O filme indica ainda que cada personagem tem um problema que se resolve ao longo da história, assim como na Commedia dell´Arte, em que sempre se encontra um final satisfatório para todos os personagens desvalidos em detrimento dos representantes do poder.

O personagem de Bruno Garcia é o bon vivant, rico herdeiro e desprovido de seriedade, que namora a mocinha que busca a fama a qualquer preço, interpretada por Camila Pitanga, ambos representando os apaixonados da Commedia dell´Arte. Marina (Fernanda Torres) é a mulher laboriosa, presente em várias comédias de Carlo Goldoni (1707-1793). Joaquim (Wagner Moura), um Arlequim moderno, algo como servidor de dois amos. Paulo José, o pai, seria Pantaleão, o nobre decadente sem dinheiro mas possuidor de uma cultura invejável, que é a parte afetiva e amorosa do filme, assim como o de Tonico Pereira representa o burguês de Bolonha, a intelectual cidade italiana. Zico (Lázaro Ramos), o fanfarrão espanhol, o matamoros espalhafatoso do gênero italiano, com uma fusão do Doutor já citado acima. Finalmente, Marcela (Janaína Kraemer) é o arquétipo do poder, a subsecretária da prefeitura que manipula as verbas como bem entende.

Cenas de lutas, fugas e perseguições são recorrentes nas tramas da Commedia dell´Arte. Alguns personagens exigem treinanento acrobático mais do que outros. Não raro, os ensaios dedicam boa parte de seu tempo a essas atividades, que favorecem a composição de personagens como Arlequim e Brighella, que possuem uma movimentação ágil e específica e alternam momentos de astúcia e ingenuidade. Por isso, os movimentos acrobáticos acabaram por ser parte integrante da formação do ator desse gênero.

No século 18, os dramaturgos venezianos Carlo Goldoni e Carlo Gozzi (1720-1806) introduziram alguns elementos definitivos na Commedia dell´Arte. Goldoni sentiu a necessidade de um texto escrito por parte dos atores, abrindo mão do aspecto mais bufão das representações e contextualizando a ação na sociedade burguesa mercantil da Veneza da época. Gozzi, por sua vez, recorre a elementos de fábula ou a um certo exotismo com aspectos que satirizavam personagens e hábitos contemporâneos. Da mesma maneira que Molière, na França, satirizava a burguesia ascendente, com peças como O Burguês Fidalgo, As Preciosas Ridículas e As Artimanhas de Scapino, entre outras, em que o pedantismo é ridicularizado e onde se vê que o aumento da riqueza material nem sempre vem acompanhado de bom gosto e refinamento.

Algumas cidades italianas foram o berço dos personagens, le maschere (as máscaras para denominar os personagens), como Bergamo, Nápoles, Veneza. Vale lembrar as características de alguns dos personagens recorrentes da Commedia dell´Arte.

Arlequim, embora arme grandes confusões, tem um aspecto enternecedor, apesar de sua máscara preta, por fazer de tudo por um prato de comida e ser freqüentemente vítima de sua ingenuidade . É o protótipo do personagem em conflito permanente com seu patrão e um pensamento obsessivo: como aplacar sua fome. Brighella arquiteta intrigas contra o patrão com malícia e esperteza por estar do lado dos enamorados. O Capitão Matamoros (mais bufão), o Capitão Spaventa (mais comedido) e Scaramouche vangloriam-se de feitos inexistentes, falam de modo exagerado, com imensos chapéus de plumas, e são sempre rechaçados pelas mulheres. Colombina é a serva hábil ao solucionar situações complexas ou de crise. Pantaleão veste uma calça tão larga que só poderia se chamar Pantalone (calça, em italiano. Ele é a caricatura do mercador ancião atraído por moças muito mais jovens e que maltrata os servos. Tartaglia, associado a Pantaleão e ao Doutor, é míope e gago e defende os enamorados.

Há alguns anos atrás, o clássico de Carlo Goldoni, Arlequim Servidor de Dois Patrões, com tradução de Millôr Fernandes, mereceu uma excelente montagem de Luiz Artur Nunes com Camila Pitanga ( a “enamorada” de Saneamento Básico), Marcos Breda, Carol Machado, Mario Borges, Leonardo Vieira, Ernani Moraes e outros. Travestida de homem, Camila interpretava Frederico Rasponi, na verdade sua irmã, Beatriz Rasponi. Marcos Breda, o Arlequim, servia a dois amos na esperança de ganhar mais dinheiro e comer mais.

O ano de 2007 celebra, com inúmeras montagens teatrais na Itália, os 60 anos da fundação do Piccolo Teatro de Milão, bem como a criação do emblemático espetáculo dirigido por Giorgio Strehler. Espetáculos assinados por renomados diretores como Luca Ronconi, Peter Brook, Maurizio Scaparro, Declan Donnelan, Jacques Lassalle, Anatoly Vassiliev, entre outros, vêm ocupando espaços variados na cidade de Milão em comemoração a essa data.

No Brasil, o ator e diretor Amir Haddad, um dos fundadores do Teatro Oficina com José Celso Martinez Correa nos anos 60, vem mantendo há quase três décadas o Teatro de Rua, no Rio e Janeiro. Através de seu grupo Tá na Rua , que de alguma maneira, guardadas as devidas proporções, nos permite imaginar como eram estimulantes os saborosos espetáculos da Commedia dell´Arte, sendo que o verdadeiro vilão não era o patrão ou as falcatruas perpetradas e sim a precariedade das condições de vida, a pobreza que se arrastava desde a Idade Média e o mais doloroso de todos: a fome. Algumas interpretações folclóricas contam que esta era representada pela cor roxa e assim, desde então não se usa por superstição o roxo em ambientes de ópera, já que a fome ameaça a sorte. Como se diz na Itália, não sei se é verdade ou mentira, mas é ben trovato.

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