22/06/2026

Rua Augusta torna-se personagem em longa de Francisco César Filho

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É um momento que poderia acontecer em qualquer lugar do mundo. Dois amigos viram a esquina, descem a rua conversando e entram num bilhar, enquanto rapazes de bicicleta correm na direção oposta. Corta. Ficou bom, mas vale a pena repetir. E novamente Alex e Tonico vão até o começo do quarteirão e se prepam para repetir a cena. “Cadê os bikers-figurantes que estavam aqui?”, chia uma assistente do diretor. Os garotos estão lá na ponta do quarteirão, se exibindo nas bicicletas, para desespero da moça. Levam uma merecida bronca quando voltam.

Essa cena poderia ser numa rua movimentada de qualquer grande cidade do mundo, mas não é. O cenário é a famosa Rua Augusta – aquela mesma onde muita gente entrou a 120 por hora. Por isso, não dá para enganar, não dá para reproduzir em cenário no estúdio – tem que ser na rua mesmo. Num dos últimos dias de filmagem do longa Augustas, terça-feira, 15 de abril, a equipe começou o trabalho no final da tarde e varou até quase as 6 horas da manhã, com uma pausa para a refeição. “Jantar, não janta. Janta é coisa de pobre”, brinca com a equipe o diretor do longa, Francisco César Filho, mais conhecido no cenário cultural como Chiquinho - respeitado como curta-metragista, assessor de imprensa e curador de mostras e festivais.

Uma das assistentes de direção fica visivelmente contrariada em ter que parar agora. Afinal, está tudo armado naquela locação – uma sinuca na Augusta. Falta apenas a tomada em que os dois personagens entram no local, ou seja, o começo da cena. Alguém lembra que já está passando do horário da refeição e o sindicato pode chiar. Mas para os dois atores, Mário Bortolotto e Henrique Schafer, o jantar pode esperar.

Depois de tudo isso, enquanto o elenco e técnicos jantam num hotel na mesma rua Augusta, o diretor conversa com a imprensa que está no set. Alguém o lembra de que precisa jantar. Ele pára por alguns segundos, pensa e dispara: “Não quero jantar, não. Percebo que depois do jantar todo mundo volta mais preguiçoso, mais pesado, é fogo”. Então, como explicar o sanduíche de churrasco que ele comeu na segunda locação da noite, o Ecletico’s Bar, antes conhecido como Bar do Ceará? O lanche parece não ter afetado seu pique, pois ele continou elétrico até o final das filmagens daquela noite.

Augustas é baseado no romance semi-autobiográfico A Estratégia de Lilith, do jornalista Alex Antunes, que o ‘escreveu’ com a colaboração da entidade Sish – que se torna uma personagem importante na sua vida e na obra. Chiquinho é amigo do autor há anos – é inclusive um personagem do livro, por isso pareceu a pessoa ideal para levar o romance às telas, com roteiro de Hilton Lacerda e José Eduardo Belmonte, além de revisão do próprio Antunes. No filme, o diretor é interpretado por Milhem Cortaz, que conduz o protagonista a rituais xamânicos em seu Gurgel.

O filme, porém, vai além das jornadas existenciais do personagem Alex, envolvido com várias mulheres e rituais místicos. “Quero também valorizar a rua, tratando-a como personagem”, explica o diretor, que estréia na ficção. Sua experiência como documentarista ajuda-o na hora de captar uma Rua Augusta mais real. “Acho muito interessante que nela convivem em harmonia freaks, prostitutas e trabalhadores”, explica.

Não ficará claro em que ano o filme está situado. Convivem juntos músicas dos anos de 1980 e celulares, por exemplo. Esse anacronismo proposital é um dos fatores para não criar nenhuma Augusta facilmente identificável – mas as várias vidas da rua. Some-se a isso um elenco competente –mas com rostos pouco conhecidos do grande público, como Caroline Abras, Guta Ruiz e Maíra Chasseraux. Além de Bortolotto, uma das figuras mais conhecidas e importantes do teatro paulistano contemporâneo, e Selma Egrei.

Em seu blog (http://xikino.wordpress.com/), o diretor comenta sobre as alegrias e dificuldades de fazer um filme de baixo orçamento, mais conhecido no meio como BO. “Como vocês já devem saber, ‘Augustas’ é um filme de baixo orçamento, logo, são só quatro semanas de filmagem e, tomara, nem um dia a mais”, conta num post. Esses problemas não parecem afetar o set, onde há um entrosamento evidente entre a equipe.

Isso, aliás, foi fundamental para uma das cenas mais complexas do filme, rodada naquela terça-feira. O cenário é o Bar do Ceará, mas com uma atmosfera totalmente alterada, meio onírica. Essa será a última aparição de Sish no longa e ela entrega algo a Alex que poderá selar o seu destino.

“As entradas de Sish no filme fugirão de um registro realista. Vou distorcer a imagem, o som, quero algo diferente do restante”, explica Chiquinho. Esse ‘algo diferente’ já começa nas filmagens. O ambiente está coberto por uma fumaça (“Parece fog londrino”, brinca) e iluminado com velas e lamparinas para criar uma luz especial. Quem parece mais preocupado com a cena é o fotógrafo Aloysio Raulino. Profissional veterano, ele sabe que o efeito do fogo, embora bonito, necessita de uma série de precauções para não produzir nenhuma sombra ou deixar a imagem muito estranha.

A cena começa. Sish, interpretada por Caroline (que também faz a prostituta Kátia), anda em direção a Alex, dizendo umas frases. O ensaio transcorre bem mas, quando a cena está valendo, a tal máquina de fazer fumaça solta um último e audível suspiro. O técnico de som diz que o barulho foi num momento sem falas,e dá para cortá-lo na montagem.

Enquanto o set é novamente preparado, chega o jornalista Alex Antunes – o verdadeiro. Ele conversa com Chiquinho, e fica por ali, observando a recriação daquilo que ele mesmo inventou. O seu envolvimento com o filme é tão grande que seu apartamento é a locação da casa do protagonista.

Antunes conta que, para ele, a cidade de São Paulo é uma espécie de Lilith, como nas pinturas do alemão Anselm Kiefer. “Por isso a cidade não é hospitaleira”, explica o escritor, que também se diz feliz com a escolha de Bortolloto para interpretá-lo – “temos personalidades bem parecidas”.

O elenco feminino também agrada a Antunes, que comenta que as personagens são mulheres fortes. Por isso, nenhuma delas dá a resposta que Alex (o personagem) procura. “Elas o destroçam. Por isso, ele se volta para a cidade. Mas São Paulo é essa Lilith e nem ela vai ajudar”, filosofa com perspicácia.

Já passam das três da manhã de quarta-feira. Faltam algumas poucas cenas para acabar a noite de trabalho. O trânsito, por incrível que pareça, não pára nunca nessa rua. Mesmo a essa hora, carros, motos e caminhões sobem e descem sem dar trégua, o que só dificulta as cenas – algumas são na calçada, todas com a porta do bar aberta.

Esse foi só um dos dias de filmagens de Augustas, que deve estrear no primeiro semestre de 2009. Agora, Chiquinho irá transformar as 47 latas de negativos 16mm num filme entre 90 e 120 minutos, com a ajuda da montadora Idê Lacreta que, conforme explica o diretor, ‘consegue transformar tudo em poesia’.

Depois da longa jornada noite adentro, a equipe começa a desmontar o set, devolver o bar ao Ceará; alguns estabelecimentos comerciais começam a subir as portas; outros, como o bilhar, cenário de horas atrás, nem fecharam; as prostitutas terminam seus expedientes, trabalhadores chegam ao ponto de ônibus. Lá em cima, no meio da Augusta, o trânsito da Paulista começa a dar sinais de vida e o Sol começa a clarear cidade. Enfim, algo que poderia acontecer em qualquer lugar do mundo, mas em nenhum como na Rua Augusta.

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