22/06/2026

Fernando Meirelles abre Cannes com seu retrato do fim da civilização

Cannes - Apesar da tranqüilidade de Fernando Meirelles com esta sua segunda vinda a Cannes, desta vez no posto de diretor do filme de abertura – fato inédito para uma produção brasileira, nos 61 anos do festival - esta volta tem sabor de revanche.

Se em 2002, quando exibiu Cidade de Deus fora de competição, ele arrancou de um dos críticos principais da poderosa Variety, Todd McCarthy, que era uma injustiça que aquele filme não disputasse a Palma de Ouro, desta vez foi Fernando quem até esnobou um pouco com a escolha de Ensaio sobre a Cegueira, que também compete pelo prêmio, como atração inaugural. Especialmente quando disse na coletiva de imprensa, na manhã desta quarta (14): “Ainda acho que este não é o melhor filme para abrir este festival”. No que concordou a estrela do filme, Julianne Moore, dizendo que achava o filme um tanto “estranho” para essa função, um tanto mundana dentro de um dos eventos mais midiatizados do mundo.

Assistindo ao filme (cujo título internacional é Blindness), é possível concordar com os dois. A crescente degradação de uma sociedade urbana indefinida geograficamente, por conta de uma misteriosa epidemia de cegueira, em que a dita civilização perde os limites de um mínimo de decência não parece, certamente, ser o tema mais adequado de um filme exibido numa uma noitada de festa, em que aos convidados é exigido o traje de gala e que é seguida por jantares que se estendem pela madrugada, num dos pedaços de litoral mais caros do planeta.

Se pensarmos que o foco do filme, baseado no livro homônimo do escritor e prêmio Nobel português José Saramago, é justamente a invisibilidade, literal ou figurada, pode-se pensar que sirva, afinal, como metáfora política de um tempo em que se deixa de ver pessoas, nações, situações que, em princípio, deveriam mover as consciências.

Fazendo jus ao seu costumeiro engajamento, o ator Danny Glover foi o mais direto ao falar desse assunto: “As pessoas da Somália, Iraque, Dalfur são invisíveis para nós. Como se pode aceitar, por exemplo, que um bilhão de pessoas no mundo vivam com menos de um dólar por dia?”.

Glover fazia eco ao que o diretor Fernando Meirelles havia dito pouco antes, lembrando o quão cínico é o livro original cada vez que se fala de governo. De fato, o que se vê é um progressivo esvaziamento das instituições, com soldados vestidos de verde-oliva lembrando demais as tropas norte-americanas no Iraque e usando armas pesadas apenas para garantir que os cegos, mantidos isolados num hospital abandonado, não abandonem em hipótese alguma o local pois se acredita que poderiam contaminar os demais.

Tsunami e Katrina
Indagados se tragédias mundiais de grande impacto, como o tsunami e o furacão Katrina, haviam-nos estimulado a adaptar o livro para o cinema, Meirelles e o roteirista e ator canadense Don McKellar foram unânimes em concordar. McKellar sintetizou: “O livro nos pareceu um sumário das tragédias do século. Espero que a alegoria que ele contém tenha sobrevivido no filme”.

Na verdade, muito do livro sobrevive no filme – embora não se saiba se Saramago, que é esperado na sessão de gala hoje à noite, irá aprovar. Na coletiva, Meirelles lembrou que teve rechaçada sua primeira tentativa de adquirir os direitos de adaptação, em 1998, quando o escritor lhe lançou uma afirmação radical: “Esta história não deve ser filmada, o cinema destrói a imaginação”. Como se sabe, depois mudou de idéia.

Há que se esperar para depois o que Saramago terá a dizer sobre o filme, mas é certo que estrutura narrativa e os personagens são bastante fiéis ao que é descrito no texto original. Eventualmente, o filme encontrou soluções mais radicais para algumas situações já bastante dramáticas – como do roubo do carro do começo da história e de quando ocorre a primeira morte entre os internos. Os personagens, de modo geral, são os mesmos, tendo Mark Ruffalo como o oftalmologista, sua mulher (Julianne Moore), como a única pessoa que vê e, por isso, torna-se essencial dentro de um pequeno grupo.

A fotografia esbranquiçada, dessaturada, de César Charlone, o uruguaio-brasileiro que é habitual parceiro de Meirelles, permite que o público compartilhe ao máximo a sensação dos cegos, que se sentem afogados numa onipresente luz branca, como um mar de leite.

Um jogo para o espectador brasileiro, especialmente o paulistano, é procurar identificar algumas paisagens da cidade – como a Ponte Estaiada da Marginal Pinheiros, a escadaria do Teatro Municipal, o Viaduto do Chá e outros pontos do centro velho da cidade – disfarçados pela ambientação de caos, com lixo e sujeira generosamente espalhados nesses locais.

Até pelo naturalismo que procura no retrato dessa imensa crise de civilização – cuja fragilidade também foi lembrada por Meirelles na coletiva -, o filme não é exatamente bonito de se ver. É inquietante, dramático, mas não procura o choque pelo choque – um equilíbrio que, diga-se de passagem, é algo muito difícil que Meirelles parece ter conseguido.

O elenco, que inclui brasileiros como Alice Braga, o mexicano Gael García Bernal e japoneses como Yusuke Iseya e Yoshino Kimura, treinou seus papéis em ensaios onde ficavam de olhos vendados, depois de algumas visitas a hospitais especializados no atendimento a deficientes visuais.

A melhor lição de casa quem fez foi Alice Braga, que trouxe um documentário, Black Sun, de Gary Tam (2005), que acabou incorporado como material de trabalho para toda a equipe. Como disse Meirelles, esse é o único filme cuja influência ele reconhece em Ensaio sobre a Cegueira.

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