04/06/2026

Mostra esmiúça filmografia de Robert Altman

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Em 1974, quando o crítico norte-americano Roger Ebbert escreveu sobre o filme Renegados até a última rajada/Thieves Like Us, ele disse que ‘alguns filmes nos oferecem experiências escapistas e espera que fiquemos satisfeitos. Mas não é possível simplesmente afundar na poltrona e absorver o novo filme de Altman; ele está mais focado com estilo enquanto assunto e sua preocupação não é com a história ou personagem, mas com como ele nos mostra essa história’.

Essa idéia resume muito bem o cinema feito Robert Altman, um dos grandes cineastas norte-americanos, homenageado com uma mostra no CCBB, que começa em São Paulo na próxima quarta-feira (04). O evento é uma chance de (re)ver as obras mais recentes do diretor, morto em 2006, e conhecer outras mais antigas e raras – nunca lançadas em DVD no Brasil, como Quinteto/Quintet, uma ficção científica, a sátira Política do Corpo e Saúde/HEALTH, e a adaptação nada convencional da obra de Raymond Chandler em O Perigoso Adeus/The Long Goodbye.

Para o curador da mostra, Angelo Defanti, “Altman foi um dos poucos cineastas que domou melhor a concepção de que cinema é uma arte coletiva e tirou o melhor disso”. Além disso, venceu os três maiores festivais de cinema do mundo. Em 1970, levou Palma de Ouro, em Cannes, com M.A.S.H; seis anos depois, Urso de Ouro, em Berlim, com Buffalo Bill – Oeste Selvagem; e, em 1993, Leão de Ouro, em Veneza, por Short Cuts. Ele foi indicado ao Oscar cinco vezes, mas só ganhou um prêmio honorário em 2006, alguns meses antes de sua morte. Na cerimônia, aliás, ao receber o troféu, ele contou ao mundo pela primeira vez que há alguns anos havia passado por um transplante de coração, e na época disse que sentia ter ainda ‘uns quarenta anos pela frente’.

“As Muitas Vidas de Robert Altman” exibirá 37 filmes do diretor – sendo que 33 são em película – e mostra um vasto painel da evolução do cineasta ao longo dos anos. Assim, é possível acompanhar a formação de seu estilo peculiar marcado por múltiplas linhas narrativas e ausência de um protagonista, dando o mesmo destaque praticamente a todos personagens.

Altman sempre foi um diretor que incomodou por colocar sob lentes microscópicas a sociedade norte-americana em seus filmes, e esmiuçar alguns de seus problemas, como a desconexão, e o que há de sórdido por trás da bela imagem dos subúrbios. Um dos maiores exemplos disso é o seu Short Cuts – Cenas da Vida, baseado em nove contos e um poema de Raymond Carver, o diretor brinca com encontros e desencontros de personagens pelas ruas de Los Angeles. São pequenas narrativas sobre a falta de comunicação, sobre pequenos erros desencadeando avalanches. Nos anos de 1980, quando leu Carver pela primeira vez, Altman encontrou nos contos algo que ia ao encontro do seu interesse como artista, ‘as coisas que acontecem às pessoas e fazem com que suas vidas tomem um desvio’.

Para o curador, a mostra é uma oportunidade para o público prestar atenção nas características do cinema de Altaman, que vão muito além de um elenco numeroso. “O complexo uso da lente zoom (quem conhece a sua filmografia, talvez encontre aqui a sua maior característica), os rebuscados trabalhos de som (onde o ambiente pode ter tanta importância quanto uma fala), o desprezo aos clichês (o diretor pegava um gênero e destroçava sua forma regular de ser filmada, muitas das vezes é mais interessante a maneira como é mostrado do que o próprio assunto), dentre tantos”, comenta Defanti.

Se por um lado, MASH, Nashville e Short Cuts são os trabalhos mais conhecidos do diretor, nessa mostra é possível descobrir outros lados da filmografia do cineasta, como o primeiro filme com uso de multi-canais, que brincam com os sons ambiente, em Jogando com a Sorte/Califórnia Split; ou o gangster romântico Renegados até a última rajada/Thieves Like Us, no qual os roubos são menos importantes do que o relacionamento amoroso entre os ladrões. Em sua carreira, a obra de Altman ‘apresenta dois lados, filmes que já têm seu lugar na história do cinema e outros que deveriam ser mais falados, mas que, por algum truque do tempo, foram se perdendo pelo caminho. A mostra vem para impedir que público brasileiro passe por isso’, explica Defanti.

CCBB – São Paulo
De 4 a 22/6
Rua Álvares Penteado, 112 – Centro
Ingressos: R$ 4 e R$ 2 (meia-entrada)
Mais informações - http://www44.bb.com.br/appbb/portal/bb/ctr2/sp/DetalheEvento.jsp?Evento.codigo=32899&cod=2

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