Respeitado roteirista, além de dramaturgo, Mamet interessou-se pela prática do jiu-jitsu, que está no centro da história. Foi seu treinador, o brasileiro Renato Magno, que pertence ao clã Gracie, quem lhe sugeriu os nomes de alguns atores brasileiros para integrar o elenco. Entre eles, Alice e Rodrigo.
Naquele momento terminando as filmagens da superprodução Eu Sou a Lenda, Alice não estava presente para um teste. Conversou com Mamet a princípio por telefone. Rodrigo, que soube da produção também por meio de seu agente, animou-se logo. Conhecia alguns livros do diretor, como Verdadeiro ou Falso, no qual Mamet diz que não acredita no famoso “Método” do Actors Studio, que defende que o ator deve compor o personagem. Para Mamet, segundo Rodrigo, o ator deve “dizer o texto com verdade, sem medo”. Por isso, o ator ficou motivado não só a conhecer o diretor, como procurar trabalhar com ele. Como estava disponível, leu uma cena, improvisou um pouco e ganhou o papel – que estava destinado a um estrangeiro, não necessariamente um brasileiro, e tinha o nome de Hector (no final, ficou Bruno).
Contratados, os dois atores brasileiros constataram que o comportamento do diretor no set não corresponde às lendas sobre ele. “Há um mito de que David é durão. Eu e Rodrigo sentimos exatamente o contrário. Ele é muito generoso, ouve muito”, assegura Alice. Rodrigo concorda: “Ele não se preocupa com hierarquia, conversa olhando nos olhos”.
O fato de que seus dois personagens têm comportamentos ambíguos, às vezes desleais, não preocupa os dois atores, em termos de prejuízo à imagem do País. “Li duas vezes o roteiro assim que recebi, também pela maneira intrincada como Mamet constrói seus diálogos. Não quis julgar a personagem. É difícil dizer se ela é má ou não. Aquela família brasileira poderia ser de qualquer lugar”, pondera Alice.
Rodrigo completa: “No quesito ‘vilão’, os brasileiros são coadjuvantes. O maior vilão é o Joe Mantegna”, assinala. Ele também acredita que o ator não deve julgar o personagem: “Como artista, eu procuro entender. No caso do meu personagem, era preciso compreender a mentalidade americana de consumo e de marketing. Não havia intenção de fazê-lo parecer uma coisa ou outra”.
Para quem questiona a qualidade de suas experiências em filmes estrangeiros – que no caso de Rodrigo, incluem superproduções como 300 e a série de TV Lost, onde ele durou pouco -, os dois têm a resposta na ponta da língua. “Minhas experiências têm sido muito boas e eu continuo trabalhando no Brasil”, afirma o ator. Ele lembra dois filmes brasileiros recentes, um já lançado (Não por Acaso), outro chegando aos cinemas no segundo semestre (Os Desafinados). Destaca estar envolvido em dois outros projetos (dos quais não pode ainda falar), no filme Heleno (sobre o jogador de futebol Heleno de Freitas) e numa peça de teatro (com Luiz Fernando Carvalho, sem data marcada). Nem novela ele descarta mas, por causa de sua agenda atual, “teria de ser uma participação breve ou obras mais curtas”.
Em Cannes, em maio passado, Santoro esteve por conta de dois filmes estrangeiros na competição, Che, de Steven Soderbergh (em que ele interpreta Fidel Castro) e o argentino Leonera, de Pablo Trapero. Em nenhum dos dois falou português, obviamente. Mesmo assim, destaca que esteve naquele festival “como brasileiro, sim” e que vibrou muito com a vitória da atriz Sandra Corveloni, em Linha de Passe, de Walter Salles – filme que Rodrigo “adorou”.
Alice também esteve em Cannes como integrante do elenco de Ensaio sobre a Cegueira, filme do brasileiro Fernando Meirelles que abriu o festival. “Cannes foi muito especial. Ensaio sobre a Cegueira, assim como o livro, é muito particular, muito pessoal, assim como a forma como ele bate nas pessoas. Ninguém saiu ileso”, frisou.
Alice também começa a filmar em setembro outra produção brasileira, no caso, Cabeça a Prêmio, adaptação do romance de Marçal Aquino que marcará a estréia do ator Marco Ricca na direção de cinema. As filmagens serão em Mato Grosso do Sul. Fora isso, devem chegar às telas nos próximos meses dois filmes americanos que ela fez, o drama Crossing Over, de Wayne Kramer, e a ficção científica Repossession Mambo, de Miguel Sapochnik.
A atriz conta já ter recusado vários convites da TV brasileira (como a minissérie Amazônia) por causa de sua agenda amarrada. Nenhum preconceito, ela garante. “Mas o cinema predominou”, conclui.
