Depois de investigar o Brasil da Era Collor, em Terra Estrangeira (1995), e a virada do milênio, em O Primeiro Dia (1998), a dupla escolheu como pano-de-fundo para o drama familiar o futebol. Mas não aquele futebol que o cinema insiste em mostrar – e mal – mas aquele outro, longe do glamour, dos milhões dos grandes clubes e das propostas de times da Europa. Linha de Passe está orçado em cerca de R$ 4 milhões. Não recebeu incentivos estatais, foi financiado com o dinheiro da pré-venda para distribuidores estrangeiros.
O argumento surgiu para Walter em 2002, depois de ver um documentário de seu irmão, João Moreira Salles, e Arthur Fontes sobre o futebol, sobre jovens que participam de "peneiras" em busca de uma chance num time; e outro sobre igrejas evangélicas no Brasil. “Como em Terra Estrangeira queríamos falar de uma família sem pai”, explica o diretor.
O roteiro foi escrito por Daniela e George Moura, que foram a campo na periferia de São Paulo pesquisar o universo do futebol e das igrejas evangélicas. Foram quatro anos de pré-produção, que incluía, além da escritura do roteiro, escalação do elenco e locações.
Quando estava prestes a ser rodado, “Linha de Passe” entrou em crise, quando João Emanuel Carneiro (co-roteirista de Central do Brasil) usou elementos do filme em sua novela Cobras e Lagartos.
Na coletiva, Walter não cita nominalmente o novelista, mas deixa claro que isso atrapalhou bastante o filme, que teve de ser reformulado com a ajuda de Bráulio Mantovani. “A entrada de um novo roteirista trouxe novo fôlego. Era numa hora crucial, quando achava que o filme não ia mais sair”, explica.
Linha de Passe tem uma pegada documental. Para isso, o elenco era fundamental. A preparação de Fátima Toledo foi importante para os atores – a maioria estreante em cinema. A experiente atriz de teatro Sandra Corveloni, que faz a matriarca da família, saiu-se tão bem em seu papel que levou o prêmio de interpretação feminina no Festival de Cannes. “Sempre digo que a protagonista do filme é a família”, explica a atriz. “A minha personagem só ganha uma força porque tem um trabalho de equipe. Ninguém ganha prêmio sozinho”.
Dos ‘filhos’ de Sandra, o único conhecido é o ator Vinicius de Oliveira, que estreou em Central do Brasil e retorna ao cinema novamente dirigido por Walter, no papel de um rapaz que sonha em ser jogador de futebol, mas não consegue uma chance. O ator sempre gostou do esporte, treinou alguns meses numa escolinha no Rio e depois participou de times juniores em São Paulo, onde encontrou pessoas em situações parecidas com as do seu personagem.
Para se preparar, o elenco ficou durante uma semana na casa onde a ‘família’ do filme mora. Assim, pode conhecer a região, interagir com os vizinhos – sem que ninguém soubesse que eles iriam fazer um filme. A ‘família’, que também inclui os atores João Baldasserini, José Geraldo Rodrigues e Kaike de Jesus Santos, integrou-se tão bem ao ambiente que quando as filmagens começaram, diversos vizinhos fizeram figuração.
Agora, Walter parte para mais uma jornada solo. Em breve, começa a filmar sua adaptação do romance On The Road, de Jack Kerouac. Enquanto isso não acontece, ele tenta convencer Daniela a fazer um outro filme que era parte do projeto original de Linha de Passe. “No outro longa, contaríamos a história de personagens que são periféricos neste – é uma espécie de contraponto. Quando tivemos problemas no roteiro, que foi reescrito, o projeto ficou bastante diferente. Não sei se cabe fazê-lo. Em todo caso, estou tentando convencer a Daniela a tocar a idéia”, revela.
