Barreto entendeu que ainda há muito o que se tirar dessa história repleta de sinistras coincidências, especialmente sobre a mãe e os antecedentes de Sandro Nascimento, o seqüestrador. Tomara que tenha razão e saia daí uma obra forte, já que foi escolhida como o representante brasileiro para concorrer a uma das cinco vagas do Oscar de filme estrangeiro 2009. Bruno é, aliás, um dos poucos diretores brasileiros que já concorreu nessa categoria, em 1998, com O Que é Isso, Companheiro?.
Atores-diretores
Apenas a Première Brasil, com filmes nacionais, é competitiva. E, tanto na ficção quanto no documentário, a produção brasileira tem do que se orgulhar.
Dois poderosos filmes de ficção marcam a estréia na direção de dois dos melhores atores da geração na faixa dos 30 anos, Matheus Nachtergaele, com A Festa da Menina Morta, e Selton Mello, com Feliz Natal. Um e outro dramas de grosso calibre, cheios de camadas que espectadores exigentes e sensíveis vão gostar de explorar.
Jovem de alma como poucos, o dramaturgo e cineasta Domingos de Oliveira, às vésperas dos 72 anos, entrega um divertido e intenso canto de amor, amizade e liberdade em Juventude, história de três amigos madurões (interpretados por Domingos, Paulo José e o diretor teatral Aderbal Freire Filho). Os três ganharam, aliás, um inédito e merecido Prêmio de Qualidade Artística no último Festival de Gramado, em agosto.
Fora de competição, Domingos exibe outro trabalho de título sugestivo, Todo Mundo Tem Problemas Sexuais. Mesmo caso de A Erva do Rato, novo trabalho de Julio Bressane que teve sua première mundial na mostra Horizontes, do Festival de Veneza 2008.
Entre os documentários, alguns dos mais promissores são ligados à música. Entre os concorrentes, Jards Macalé – Um Morcego na Porta Principal, de Marco Abujamra e João Pimentel, Cantoras do Rádio, de Gil Baroni e Marcos Avellar, e Loki-Arnaldo Batista, de Paulo Fontenelle.
Entre os docs hors concours, aposta-se em O Homem que Engarrafava Nuvens, em que o pernambucano Lírio Ferreira (Cartola) radiografa desta vez a figura do “Doutor do Baião”, Humberto Teixeira. Indo na certa, dois dos melhores hors concours da seleção são Pan-Cinema Permanente, retrato do poeta e compositor Waly Salomão feito por Carlos Nader, e Simonal, Ninguém Sabe o Duro que Dei, perfil do cantor assinado pelo trio Cláudio Manoel, Calvito Leal e Calvito Langer, ambos filmes premiados no É Tudo Verdade 2008.
Internacionais para toda obra
A possibilidade de escolha entre as atrações internacionais, colhidas ao longo de festivais como Berlim, Cannes e Veneza, é quase covardia. Em todo caso, vale observar que algumas cinematografias estão particularmente bem representadas.
É o caso da Argentina, que fará bonito na Première Latina com Leonera, drama de uma prisão feminina dirigido por Pablo Trapero; La Mujer sin Cabeza, perfil de uma mulher rabiscado na habitual dramaturgia minimalista de Lucrecia Martel; e também Il Nido Vacío, trama intimista de Daniel Burman, um dos convidados esperados no Rio.
O festejado roteirista Charlie Kauffman (Quero ser John Malkovich) é outro que deve comparecer pessoalmente ao lançamento carioca de sua estréia na direção, Sinédoque, Nova York, que concorreu no Festival de Cannes. Fiel ao seu estilo, Kauffman entrelaça diversos planos de percepção e realidade para sedimentar a traçar de um diretor teatral (Philip Seymour Hoffman) na montagem de uma peça interminável.
O time norte-americano, aliás, está bem-representado com bons dramas como O Casamento de Rachel, de Jonathan Demme, que concorreu em Veneza; Guerra sem Cortes, crua exposição da tragédia do Iraque dirigida por Brian de Palma (exibido em Veneza e na Mostra de São Paulo de 2007); Velha Juventude, novo filme de Francis Ford Coppola, que não filmava há 10 anos (desde O Homem que Fazia Chover), e de quem será exibido também um restaurado O Poderoso Chefão; sem contar o mais engraçado Woody Allen em um bom tempo, Vicky Cristina Barcelona, em que brilha o tempero espanhol da dupla Javier Bardem e de uma Penélope Cruz mais desvairada do que nunca.
Esquadra italiana
Premiados em Cannes 2008, vêm dois filmes assinados por dos mais talentosos diretores atuais na Itália, Matteo Garrone, com o drama Gomorra, sobre a máfia napolitana, Paolo Sorrentino, de quem se mostra Il Divo, ácida sátira política sobre o ex-primeiro ministro Giulio Andreotti (interpretado saborosamente por Toni Servillo).
Entre as animações, vale menção a Ponyo on the Cliff by the Sea, novo trabalho do mestre japonês Hayao Miazaki que concorreu em Veneza e, num registro mais dramático, Waltz with Bashir, de Ari Folman, que revê a tragédia de Sabra e Chatila e competiu em Cannes.
A lista é interminável: há o novo Alexandr Sokurov (Alexandra, exibido em 2007 em Cannes); Andrej Wajda (o drama de guerra Katyn), Errol Morris (com o estupendo documentário, premiado em Berlim, Procedimento Operacional Padrão), Mike Leigh (outro premiado em Berlim, Happy Go-Lucky). Sem contar as mostras especiais, contemplando o inglês Derek Jarman, os irmãos Paolo e Vittorio Taviani (espera-se Paolo no Rio) e uma mostra japonesa que reúne Yoji Yamada e Masahiro Kobayashi. É melhor preservar o fôlego, porque a maratona carioca só está começando e vai até 9 de outubro.
