Não houve nada parecido com a explosão que recebeu, no ano passado, Tropa de Elite, de José Padilha, abrindo este mesmo festival. Tropa... foi ovacionado e, muitas vezes, recebeu reações entusiasmadas do público durante sua sessão inaugural, no Odeon e no Palácio, que fica a poucos metros da sala principal voltada ao cinema brasileiro neste festival, na Cinelândia, centro da cidade.
Baseado em outro filme do mesmo Padilha – com quem Barreto se diz “rompido” - , o documentário Ônibus 174, que ele ficcionaliza, o trabalho exibido ontem perde na comparação. Aliás, não só com Ônibus 174, mas também com vários outros filmes brasileiros recentes que enfocaram a violência e a desigualdade social do Brasil, caso de Cidade de Deus, de Fernando Meirelles, e de Linha de Passe, de Walter Salles e Daniela Thomas, este último atualmente em cartaz.
Mesmo com a parceria do experiente roteirista Bráulio Mantovani (que participou da escrita de Cidade de Deus, Tropa de Elite e Linha de Passe – que Barreto descreveu ontem à noite como “co-autor” de seu filme, o que mais incomoda é a falta de organicidade de Última Parada 174.
A sucessão de eventos trágicos que molda a trajetória perdida de dois meninos (os bons atores Michel Gomes e Marcello Melo Jr.) flui de maneira atravancada, forçada, dramaturgicamente inconsistente. Assim, o filme perde credibilidade e, o que é pior, conexão emocional com o público, o que seria, justamente, sua própria razão de existir.
A personagem fundamental da mãe de um dos meninos não tem, igualmente, um desenvolvimento dramático à altura da ótima atriz Cris Viana.
Com tanto material explosivo, quanto assassinato de uma mãe, abandono de crianças, seu engajamento no crime e na violência, a chacina de meninos de rua diante da igreja da Candelária (fato real ocorrido em julho de 1993) e outros que sustentam o enredo, Barreto não se mostrou o diretor ideal para trazer à tona elementos que complementariam a história tão bem desenhada no documentário Ônibus 174 - que comprensivelmente fecha seu foco na tragédia do ônibus seqüestrado em 2000, que culminou com a morte de uma das reféns e do próprio seqüestrador, Sandro Nascimento. Que era mesmo um sobrevivente do massacre da Candelária. Uma história real assim forte dificilmente comportaria uma recriação melhor na ficção. Foi o que aconteceu.
