Para o diretor do festival, "é fantástico que Michael Moore tenha ocupado na cena americana um espaço dessa dimensão, como opositor de Bush". Labaki destaca que os cineastas do gênero mudaram de atitude e isto foi fundamental para obterem maior atenção da mídia e do público. "Os documentaristas perderam a vergonha. Não estão mais achando que tenham que fazer filmes tão sedutores quanto os da ficção. Perceberam que deveriam se mexer e se mexeram", afirma o diretor do festival. Analisando o crescimento do espaço do documentário em todo o mundo, inclusive no Brasil - onde filmes como Janela da Alma, de João Jardim e Walter Carvalho, ultrapassaram 130.000 espectadores - Labaki avalia que "os documentaristas vêm criando pausas iluministas, ajudando-nos a entender o mundo".
Comprovando a tendência de maior valorização do gênero documental, a oitava edição do É Tudo Verdade - Festival Internacional de Documentários teve este ano um recorde de inscrições. Foram 600 candidatos, 60% deles produções brasileiras - um salto considerável, especialmente em termos nacionais. Na primeira edição, em 1995, os candidatos brasileiros não passaram de 45, dos quais apenas 25 foram selecionados.
CONVERSA COM O COMANDANTE - As sessões de abertura reservam duas atrações especiais. Uma delas é o esperado Comandante, documentário em que o cineasta americano Oliver Stone condensou em 99 minutos nada menos de trinta horas de conversas com o presidente cubano, Fidel Castro. Nessas conversas, não houve assuntos proibidos. Fidel e Stone falaram de John Kennedy, Che Guevara, dos líderes soviéticos, geopolítica, tortura, genética, religião, psiquiatria e até de Viagra, num tom direto e descontraído. A atração nacional da abertura é Nelson Freire, de João Moreira Salles, que registra a trajetória do pianista mineiro de renome internacional, em imagens filmadas entre maio de 2000 e agosto de 2001. Moreira Salles também dará uma palestra na terça (8), às 11h, no Museu da Imagem e do Som, em São Paulo.
A seleção final de 2003 elegeu 104 filmes, representando 24 países. Como nas edições anteriores, atenção especial foi reservada às retrospectivas. A retrospectiva internacional destaca o trabalho do dinamarquês Jorgen Leth, aos 65 anos um dos nomes mais representativos do panorama europeu e que acaba de produzir, em parceria com o cineasta criador do Dogma 95, Lars von Trier, o projeto As Cinco Obstruções, que será apresentado em primeira mão no próximo Festival de Cannes (entre 14 e 25 de maio próximo). Conhecido por um estilo em que alinha imagens justapostas sem um roteiro definido, Leth celebrizou-se por trabalhos como 66 Cenas da América (1981) e Novas Cenas da América (2002). Neste último, filma locais como o Monument Valley, em Utah, placas de estrada na Califórnia, personalidades como o ator e diretor Dennis Hopper e o músico John Cale, além de anônimos, como o performático barman do Sardi's, em Nova York.
NA TRILHA DE MÁRIO DE ANDRADE - A retrospectiva nacional é dedicada a 13 trabalhos do brasileiro Eduardo Escorel, em que um dos destaques é Chico Antônio, O Herói com Caráter. Filmado em 1983, trata-se de um vídeo que recupera a figura de um cantor de côco do interior do Rio Grande do Norte, que havia sido descoberto por Mário de Andrade em viagem que o escritor paulista fizera à região, em 1929. Quase 60 anos depois desse encontro com o autor de Macunaíma" Chico Antônio foi descoberto por Escorel, com 80 anos, alegre e lúcido o bastante para recordar o contato com Andrade e entoar algumas das melodias que o encantaram.
Além da atitude mais política de criadores como Michael Moore, Labaki identifica uma outra tendência nos documentários de todo o mundo e que será relevante nesta edição: o intimismo. Exemplo acabado desta fórmula estará em produções da seleção competitiva internacional, como Os Meninos de Pinochet, de Paula Rodriguez, que documenta a visão da ditadura chilena de três jovens que eram crianças em 1973, ano em que o general Augusto Pinochet chegou ao poder.
Um outro caso é Brook por Brook - Um Retrato Íntimo, em que Simon Brook, filho do celebrado diretor teatral e cineasta inglês Peter Brook (autor dos filmes O Mahabarata e Encontros com Homens Notáveis) procura captar a figura de seu pai, revelando inesperados detalhes de sua dimensão humana e artística. Um dos títulos mais contundentes desta seleção deverá ser a produção inglesa O Dia que Não Vou Esquecer, em que a diretora britânica Kim Longinotto reúne depoimentos de mulheres do Quênia que sofreram a mutilação de genitais - uma prática primitiva e brutal, baseada em motivos religiosos e que vem resistindo a sucessivas tentativas de sua erradicação. Entre os títulos da competição nacional, Recife/Sevilha, João Cabral de Melo Neto, de Bebeto Abrantes, acompanha o poeta pernambucano em seus últimos tempos de vida. Dois outros filmes, Carandiru.doc, de Rita Buzar, e O Prisioneiro da Grade de Ferro (Auto-Retratos), de Paulo Sacramento, têm como tema o Carandiru, a prisão paulistana implodida no final de 2002. Rita Buzar enfoca, aliás, o trabalho dos figurantes do longa Carandiru, de Hector Babenco, com estréia brasileira marcada para o próximo 11 de abril. No trabalho de Paulo Sacramento, filmado um ano antes da desativação da prisão, mostra-se um grupo de detentos aprendendo a usar câmeras de vídeo para documentar o cotidiano daquele que foi o maior presídio da América Latina.
Este ano, o festival oferecerá um total de R$ 57.000,00 em prêmios e serviços. Em São Paulo, são os seguintes os locais de exibição: Centro Cultural Banco do Brasil (sala de cinema e vídeo), Cinusp, Centro Cultural São Paulo, Museu da Imagem e do Som, Itaú Cultural, Cinusp, CineSesc e Sesc Vila Mariana. No Rio, apenas no Centro Cultural Banco do Brasil (sala de cinema e vídeo). A programação completa pode ser conferida no site do festival: www.etudoverdade.com.br
Cineweb-25/3/2003-17.32
