21/06/2026

Laurent Cantet revê educação em "Entre os Muros da Escola"

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Desde a vitória da Palma de Ouro em Cannes, em maio de 2008, a acolhida para um pequeno filme que retrata a dinâmica de uma classe secundária numa escola pública de um bairro popular em Paris, Entre os Muros da Escola, de Laurent Cantet, tem sido ampla e quase irrestrita. Na França, onde o filme chegou às salas em setembro do ano passado, foi visto por 1,6 milhão de espectadores – façanha considerável num país de 50 milhões de habitantes.

O que deixou feliz o diretor, que visitou o Brasil neste início de março de 2009, foi que muitos desses espectadores eram jovens. “Alguns foram com seus professores. Mas muitos adolescentes se interessaram em ver como o filme os representava. E creio que se enxergaram nele. Acho que foram tocados porque o filme não os estigmatiza e eles não estão habituados a isso”, analisa Cantet, em entrevista exclusiva em São Paulo.

O cineasta acredita que a repercussão do filme em seu próprio país – onde ele será lançado em DVD neste dia 24 – aconteceu igualmente “porque fala da realidade e porque o debate sobre a escola na França é um pouco um esporte nacional”. E explica: “Todo mundo tem uma idéia do que deve ser a escola, de como deve ser um grande professor”.

Entre os Muros da Escola reacendeu inúmeros debates na França. Como uma controvérsia entre aqueles que pensam que a escola é apenas o lugar onde se aprende matemática ou história e, ao contrário, aqueles que acham que é o lugar onde se aprende a viver, a pensar, a exercer seu senso crítico.

Da mesma forma, voltou à cena o conflito entre os antigos e os modernos, em termos do uso da autoridade e da independência que se deve conceder ou não aos adolescentes.

“Esta é uma questão muito viva na França. E também fora dela, segundo tenho constatado”, frisa o cineasta, com a autoridade de quem viu seu filme ser vendido a nada menos de 60 países, sendo que, em 25 dos quais, ele esteve pessoalmente para o lançamento – como é o caso, agora, do Brasil e da Argentina, para onde ele seguiu depois.

Embora consciente de que há diversas diferenças entre a França e o Brasil, Cantet entende que há diversos pontos de contato que não respeitam fronteiras. Para ele, em toda parte, “a escola é onde o lugar onde as diferenças se encontram, onde tomam forma todas as questões importantes que vão depois impactar a sociedade. Ali estão os cidadãos de amanhã. Se a escola não incorporar suas questões, vai haver grandes problemas”.

Normalmente avesso à militância, o cineasta diz que há um assunto que o mobiliza especialmente – a questão dos imigrantes ilegais, os chamados “sem papéis” e as restrições que atingem particularmente os estrangeiros na Europa de hoje. O tema é importante porque, como ele reconhece, a França tornou-se um país bastante miscigenado. É preciso então, olhar com carinho essa grande diversidade, esse multiculturalismo, que, para ele, “é uma riqueza, não um problema”.

A questão entra no filme implicitamente, já que boa parte dos alunos são filhos de imigrantes africanos ou asiáticos, às vezes de segunda ou terceira geração, que muitas vezes não se sentem franceses. “A questão é o espaço que se deixa para eles. Eles sentem que não fazem realmente parte da comunidade. Não são desejados. Isto me revolta realmente”.

Outro aspecto importante dentro do filme é a língua. Em primeiro lugar, porque o professor (François Bégaudeau) leciona francês. A questão evolui dentro da história, levando ao confronto entre a norma culta e a maneira como os adolescentes efetivamente falam.

O que agradou a Cantet no livro de François (que é o professor visto no filme e também o autor do livro em que ele se baseia, igualmente chamado Entre os Muros da Escola) é “a idéia de que não há uma única língua, que a língua que aprendemos na escola é evidentemente necessária, para que encontremos trabalho, para lidar com diversas situações, para não ser colocado de lado. Ao mesmo tempo, François nunca diz: ‘parem de falar como falam’. Ao contrário”.

Entra aí o aspecto da riqueza da multiculturalidade. Para Cantet, “a língua desses alunos é plena de invenções, ela trabalha sobre a imagem, sobre o ritmo, sobre a ironia. Ele não quer lhes proibir de falar como falam e sim ajudá-los a escolher o registro a usar, dependendo da situação. Ele está lá para lhes dar esta arma”.

ESPONTANEIDADE - Um dos aspectos mais notáveis do filme é a impressão de que tudo está acontecendo realmente ali e agora. Isto foi conseguido mediante um processo de convivência entre o diretor, um grupo de 50 alunos (afinal reduzido a 25) de uma escola de bairro popular em Paris (no 20º arrondissement) e François Bégaudeau (também um dos corroteiristas), ao longo de um ano. Uma vez por semana, às quartas-feiras, eles se reuniam por três, quatro horas.

Este é, aliás, um método que o diretor, que já assinou A Agenda (2001), usa sempre que pode. “Não sou o tipo que escreve o roteiro solitário em seu computador. Além do mais, queria escutar o que tinham a dizer-me sobre sua vida. Isto me permitiu também conhecê-los muito bem, bem como criar os personagens junto com eles”.

Outro objetivo era recuperar essa energia de que são capazes os adolescentes, para “espantar a possível má impressão que as pessoas tenham ao saber que o filme se passa o tempo todo dentro de uma sala de aula”. Usando um método que reproduz a realidade, ao mesmo tempo que a reinventa – já que o filme não é um documentário – seu aspecto mais notável é, justamente, sua impressão de espontaneidade.

Outro fator favorável ao ritmo do filme é a colocação de três câmeras – cuja localização se fica imaginando o tempo todo -, colocando aluno e professores no mesmo plano. “Era importante que se passasse essa impressão de igualitarismo entre todos”, explica o diretor.

Cantet revela que nunca sentiu vontade de mostrar imagens fora da escola – da casa do professor ou dos alunos, por exemplo. Para ele, a idéia era “olhar esse microcosmo, onde tudo se construísse naquele instante, dentro daquele espaço. O mundo exterior é que de vez em quando entra. Como a mãe de Souleymane (um dos personagens) e aí imediatamente compreendemos tudo”.

Até agora envolvido no lançamento deste trabalho, o diretor ainda não teve tempo de formatar seu próximo projeto. Ele acredita que, aí, a Palma de Ouro deve ajudar, ao menos em termos de financiamento.

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