Não é só um filme sobre Chacrinha. Ou, pelo menos, não é uma cinebiografia em sentido literal. Ao entrevistar chacretes de vários períodos do programa – Loira Sinistra, Vera do Flamengo, Índia Potira, Rita Cadillac e outras – e artistas lançados ou apoiados pelo apresentador – Fábio Jr., Agnaldo Timóteo, Baby Consuelo, Wanderley Cardoso – o filme põe em discussão o entretenimento popular, o espetáculo, o mau-gosto, a autoexposição, a passagem do tempo, a decadência, a decepção.
Os limites do espectador são postos em xeque pela exposição das chacretes, hoje senhoras envelhecidas, ao contarem suas intimidades – com quem foram para a cama, especialmente os famosos, mortos ou vivos – e mesmo seus corpos, hoje já longe da forma que as mantinha na linha de frente do programa do Chacrinha.
Há momentos em que se pode legitimamente pensar se as chacretes não estão sendo expostas além de um mínimo de ética – e, mesmo desrespeitando um politicamente correto que já não se mostra 100% válido, um documentarista há de ter algum limite. Cenas como a da Índia Potira nua na fonte em frente ao restaurante onde hoje trabalha ou outra chacrete que se esforça para entrar no apertadíssimo maiô que há algumas décadas ela empunhava orgulhosamente no palco. Tudo isso faz pensar.
Há sequências genuinamente hilariantes e que expõem o ridículo de situações. Caso do cantor Biafra sendo abalroado por um ultraleve desgovernado enquanto cantava ou de Wanderley Cardoso dando um chutinho de leve em seu próprio cachorro, que uivava enquanto ele tentava entoar uma canção na sacada de seu apartamento.
Esse tipo de humor pastelão, que nasce do ridículo, é extraído também do encontro com ex-calouros, como dois gagos, várias vezes gongados por Chacrinha, e o famoso Almir Fon Fon, que adquiriu o apelido por ter sido buzinado pelo apresentador e ainda hoje é capaz de derramar sentidas lágrimas ao lembrar da situação.
Há outros tipos de barraco - como Agnaldo Timóteo desancando a Tropicália, a Bossa Nova (segundo ele, “farsas”) e João Gilberto, e a insistência do documentário, especialmente em sua porção inicial, em identificar os casos das chacretes com famosos e os amores clandestinos do próprio Chacrinha. Fofocas, enfim, que fazem a alegria do mundo siderado por celebridades em que hoje vivemos. Um mundo que Chacrinha não só antecipou como ajudou a criar.
Talvez Alô Alô Terezinha tenha seu valor como retrato de um lado patético da natureza brasileira. Ainda é cedo para ter opiniões definitivas sobre o filme. A primeira impressão, contudo, é que faltou distanciamento e reflexão crítica em algum momento.
