Caro Francis resgata a figura do polêmico jornalista, morto em 1997, de um ponto de vista assumidamente hagiográfico. Poucos críticos de Francis são entrevistados por Hoineff, que assumiu ter feito “uma carta para um amigo”, na coletiva sobre o filme, na tarde deste sábado (11).
Apesar deste comprometimento a priori, o documentário também expõe a face agressiva e até irresponsável de Francis, apresentando diversas de suas participações em programas de televisão. Uma das mais sintomáticas de seu estilo é quando diz que “nos 25 anos de ditadura militar ninguém no Brasil deu um pio” – exceto ele mesmo, que vivia em Nova York. Ou seja, desprezando a luta armada, os movimentos civis de resistência à ditadura militar, os presos políticos e desaparecidos.
Nenhum episódio talvez dê maior medida da irresponsabilidade de Francis quanto no momento em que acusou a então diretoria da Petrobras, encabeçada por Joel Rennó, de roubalheira, no programa televisivo Manhattan Connection, da GNT. A acusação, para a qual ele nunca apresentou provas, motivou uma ação judicial movida por Rennó, pedindo indenização milionária. O documentário defende que o processo esteve entre as causas da morte do jornalista, aliada também a supostas negligências médicas – também não comprovadas.
Pode-se igualmente fazer sérios reparos éticos ao documentarista quando decide colocar no filme o áudio de uma conversa com Joel Rennó – sem seu conhecimento nem autorização, como admitiu Hoineff na coletiva. E também em outro momento, particularmente apelativo, em que coloca a viúva do jornalista, Sonia Nolasco, lendo entre lágrimas uma carta de Francis a Hoineff, contando sobre a iminente morte de sua gata de estimação favorita, tia Alzira. Hoineff contou na coletiva que Sonia não fora avisada previamente da cena que acabou protagonizando.
História de redenção
A ficção da noite, O Contador de Histórias, de Luiz Villaça, põe em foco a desastrada política do menor no Brasil desde os anos 70, fixando-se na impressionante biografia de Roberto Carlos Ramos.
Nascido nos anos 1970 em Belo Horizonte, Roberto era o caçula de uma família pobre com muitos filhos. Entregue à FEBEM (Fundação para o Bem-Estar do Menor) pela mãe, que acreditava que ele teria um futuro melhor ali dentro, acabou tornando-se um fugitivo da instituição. Mas que sobreviveu ao abandono e à violência e, por causa da intervenção de uma pedagoga francesa, Marguerite Duvas (vivida pela atriz Maria de Medeiros), conseguiu estudar e tornar-se, anos depois, um famoso contador de histórias, conhecido internacionalmente.
Na coletiva do filme, Villaça contou ter conhecido a história de Roberto Carlos Ramos num livro que ele mesmo escreveu, em 2002. A partir daí, lutou para transformar sua impressionante trajetória no filme, que teve ontem sua primeira sessão pública.
Pontuada de incidentes trágicos e engraçados, a biografia de Ramos sofreu diversas adaptações. O roteiro foi escrito por quatro profissionais – além do diretor Villaça, também José Roberto Torero, Maurício Arruda e Mariana Veríssimo – e condensa, por exemplo, num único personagem, a pedagoga Pérola (Malu Galli), a figura de diversas outras educadoras que passaram pela vida do menino, no período em que entrava e saía da FEBEM.
O diretor defende essas recriações: ” Não é um documentário. Fizemos várias entrevistas e algumas pesquisas mas tudo foi mesmo muito adaptado”. Apesar disso, O Contador de Histórias incorpora o elemento documental ao inserir a narração em off do próprio protagonista e em sua aparição, na sequência final do filme.
Villaça acentua que procurou manter um traço essencial da linguagem de Ramos, sua fantasia para narrar episódios de sua vida, mesmo trágicos, como as violências sofridas – e que incluíram espancamentos, prisão em isolamento e até estupro. “Ele usou a fantasia até para poder aceitar essa realidade”, acredita.
No filme, as fantasias do menino são materializadas com o uso de animação e de recursos como música e figurino – como numa cena de assalto a banco em que os ladrões se vestem no estilo do grupo Jackson Five, ao som da música “Sá Marina”, na voz de Wilson Simonal, recuperando também o clima dos anos 70.
Tal como aconteceu a Ramos, o filme começou a mudar a vida também de pelo menos um de seus atores mirins, que nele estrearam. Paulinho Mendes, que o interpreta aos 13 anos, foi convidado a um estágio de atuação de seis meses no Grupo Galpão, de Belo Horizonte.
