A polêmica começou pelo fato de que Jeferson, cineasta negro que tem no currículo os curtas Distraída para a Morte (2001) e Carolina (vencedor de três prêmios no Festival de Gramado 2003) e que liderou o chamado “Dogma Feijoada”, manifesto pela maior e melhor expressão da negritude no cinema, ter escolhido como protagonista do filme um ator branco, Caio Blat. “Pessoas do movimento negro já me cobraram por isso. Mas eu acho que há uma grande questão nacional no Brasil hoje além do racismo e das cotas. A negritude é uma discussão muito contemporânea. Acho que meu filme inaugura uma outra, que eu chamo de ‘branquitude’”.
Para quem não entende o termo, o cineasta traduz: “Boa parte da classe média branca, de 15 a 25 anos, se identifica com a cultura negra. Isso aparece na calça larga e no boné virado para trás, em falar ‘mano’, gostar de axé, andar com tênis sem cadarço ou desamarrado e muitas outras coisas”.
Contando a história de três amigos, filmada quase inteiramente em locações externas no Capão Redondo no ano passado – Bróder está atualmente em fase de finalização -, o trabalho também se propõe a ultrapassar os limites do que já constitui um verdadeiro gênero dentro do cinema brasileiro, o chamado “filme de periferia”. “Não dá para fazer Tropa de Elite em São Paulo. Meu interesse é nas relações humanas. Minha história, aliás, poderia se passar em qualquer outro lugar”. O roteiro foi escrito a quatro mãos por Jeferson e Newton Cannito (de Quanto Vale ou é Por Quilo?, de Sérgio Bianchi, tendo Cacá Diegues como produtor associado. A estreia está prevista para o primeiro semestre de 2010.
Contra os clichês - O cineasta acha que Bróder vai surpreender muita gente com uma nova visão sobre o Capão Redondo. “É um mistério. Ninguém sabe, ninguém vai lá. Para mim, é um dos lugares mais criativos do Brasil”. Jeferson lembra da existência da Cooperifa, um evento que há anos reúne pessoas num bar do bairro para recitarem suas poesias e também do escritor Férrez, autor de vários livros, como Capão Pecado e Inimigos Não Mandam Flores. Foi Férrez, aliás, quem trabalhou ao lado do diretor na composição dos diálogos. A naturalidade perseguida foi tanta que Jeferson acredita que muita gente pode até ter a impressão de que o filme foi todo improvisado. O que não é verdade.
Esse frescor na linguagem também foi obtido pelo fato de que os atores, como Caio Blat, Cássia Kiss, Jonathan Haagesen e Ailton Graça, ao lado de novatos como o rapper Du Bronx, estreante no cinema, tenham mergulhado no bairro, descobrindo suas gírias.
Outra ideia pronta que Jeferson pretende afrontar refere-se à trilha sonora. Ele recorda que muita gente pensa que a música que toca no Capão Redondo limita-se ao rap de protesto. Uma visão que ele garante ser equivocada: “Lá toca forró, gospel, música sertaneja, pagode paulista e até funk”. No momento, o diretor ainda define com João Marcelo Bôscoli, da gravadora Trama, a moldura final das músicas que embalarão o filme. Mas ainda quer guardar segredo sobre isso.
