08/06/2026

Brasileiros selecionados para Veneza trabalham com linguagem autoral

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Daniela Thomas é categórica ao falar do Festival de Veneza, para o qual foi selecionado seu longa Insolação - dirigido em parceria com Felipe Hirsch. “O festivais são como um pódio para a gente. Ter um filme selecionado para Veneza é uma honra muito grande. Pois o Marco Müller [diretor do Festival] acompanha as principais tendências criativas do momento”, disse a cineasta por telefone. O longa participa da seção Horizontes, a principal mostra paralela do Festival, que acontece entre 2 e 12 de setembro.

Daniela já participou dos principais festivais de cinema do mundo, com O Primeiro Dia, exibido fora de competição em Berlim em 2000, Linha de Passe e um curta do longa coletivo Paris, Te Amo, em Cannes, em 2008 e 2007, respectivamente. Todos foram codirigidos por Walter Salles que receberá, por sua vez, em Veneza o prêmio Bresson. Trata-se de um troféu concedido pela Fondazione Ente dello Spetacolo e a revista Cinematografo há 56 anos a cineastas de talento reconhecido. Já o receberam Wim Wenders, Giuseppe Tornatore, Zhang Yuan e Aleksandr Sokurov, entre outros.

Para Hirsch, mais conhecido como diretor de teatro – contando com Daniela como cenógrafa em vários de seus trabalhos -, o Festival de Veneza vem como mais um precioso passo no processo de cinco anos de trabalho em Insolação. “Fomos lapidando com calma. Queríamos falar de amor e utopia, meditando cada coisa do longa. Foi um filme para o qual fazíamos questão de que cada passo fosse muito bem pensado”.

O codiretor também diz que o mais importante ao fazer Insolação era a sinceridade. “O que nos impulsionou e tentamos levar para o filme foi ser o mais fiel possível aos sentimentos. É um filme delicado, pois para se falar de amor é necessário delicadeza”.

Insolação foi rodado em julho do ano passado – quando Daniela voltou de Cannes – em Brasília, mas a ação não se passa em nenhuma cidade específica. “A capital aqui não é vista pelos seus cartões postais, a gente mostra os corredores e áreas de serviço”, explica Daniela.

O roteiro foi escrito por dois norte-americanos, o dramaturgo Will Eno e o escritor Sam Lipsyte, baseando-se em contos de autores russos do final do século XIX, início do século XX, como Tchekhov, Pushkin e Turgenev. “Os personagens vagam apaixonadamente e sentem uma espécie de febre de amor. No começo da história, um deles não sabe se está apaixonado mesmo ou se está sofrendo de insolação, daí o título”, conta a diretora. O elenco traz Simone Spoladore, Leonardo Medeiros, Leandra Leal e Paulo José, que funciona como uma espécie de narrador.

Para as telas, Daniela e Hirsch levaram a experiência da parceria de mais de uma década no teatro, que rendeu obras como Não Sobre o Amor, Avenida Dropsie, e, mais recentemente, Viver Sem Tempos Mortos, protagonizado por Fernanda Montenegro -que acaba de estrear no Rio depois de uma temporada em São Paulo.

“Costumo achar que o teatro pode trazer coisas para o cinema, e vice-versa. Em Insolação, creio que fizemos um filme delicadamente cinematográfico”, arremata Hirsch. Já Daniela acredita que o longa vai encontrar um público muito particular, ou como ela diz, ‘híbrido’. “É um filme que nasceu de pesquisa de linguagem, é algo muito especial. Acho que deve se comunicar tanto com as pessoas que gostam de cinema, quando as que gostam de teatro”.

Do sertão para o mundo
Marcelo Gomes e Karim Aïnouz também apresentam na mesma mostra Horizontes sua parceria Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo. Uma ficção na qual a dupla trabalha há mais de dez anos.

“É um sonho antigo. Um desejo de contar uma história no sertão do Nordeste, que é a nossa memória afetiva”, contou Gomes por telefone de Nova York, onde está fazendo contatos para seus próximos projetos.

A dupla, cuja parceria rendeu roteiros como Madame Satã (estreia na direção em longas de Aïnouz, em 2002) e Cinema, Aspirinas e Urubus (estreia na direção em longas de Gomes, em 2005), trabalha em Viajo... há cerca de uma década, coletando imagens do sertão. “Era para ser um documentário. Mas achamos melhor criar uma ficção com um personagem com um drama pessoal, o sentimento de quem cruza o sertão”. Esse personagem é o geólogo José Renato (Irandhir Santos), que realiza uma pesquisa de campo numa região remota no sertão. O isolamento lhe deserta sensações de solidão, desamparo e saudade da ex-mulher.

A parceria frutífera, além dos roteiros, rendeu também uma instalação na Bienal de São Paulo de 2004, chamada Ah, se tudo fosse sempre assim. Mas, como lembra Gomes, Viajo... foi a primeira colaboração entre os dois. “O projeto começou antes mesmo dos roteiros e dos nossos longas. Ele veio do desejo que eu e Karim temos de fazer um tipo de cinema”.

Depois de Nova York, Gomes irá para a Espanha, onde se reunirá com uma empresa produtora, e finalmente para o Festival de Veneza, onde se encontrará com seu co-diretor. A seleção de Viajo... na mostra Horizontes é, para Gomes, a sensação de estar em boa companhia. Além de participarem ao lado de Daniela e Hirsch, ele lembra que essa mostra exibe um cinema que lida com novas linguagens e aponta tendências. “Já exibiram filmes de cineastas como Julio Bressane e Cao Guimarães. É uma mostra que privilegia o cinema autoral, aquele que lida com uma linguagem pessoal."

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