20/06/2026

"Homo Viator" revisita guerra suja argentina no Cine Ceará

post-img
A memória de uma vítima da guerra suja argentina voltou no docudrama Haroldo Conti – Homo Viator, de Miguel Mato, longa concorrente na noite de sexta (31) no Cine Ceará.

Realizado com um orçamento incrivelmente limitado – US 64.000, segundo o diretor -, o filme conseguiu a adesão do ator Darío Grandinetti (de Fale com Ela), que encarna o escritor Haroldo Conti (1925-1976) nas cenas de reconstituição de sua vida. Através dos fragmentos de uma obra em que se destaca o romance Mascaró, o Caçador Americano, o documentário traça o perfil de um autor que na época contava 41 anos e estava em vias de tornar-se uma figura conhecida e consagrada. Tornando-se militante de um grupo político clandestino que combatia a ditadura militar, Conti foi sequestrado em sua própria casa, diante de mulher e filhos pequenos em 1976, e entrou em sua enorme lista de desaparecidos.

O diretor destacou, no debate sobre o filme, ter procurado justamente o resgate de uma figura esquecida na Argentina – e não apenas no sentido político. Analisando o contexto de seu desaparecimento, Mato declarou: “Os objetivos da doutrina de segurança nacional das ditaduras latino-americanas era fazer desaparecer os pequenos atores, estudantes, donas de casa, gente de cultura. Assim, Conti passou a ser um desaparecido em todos os sentidos. Ele não faz parte da discussão literária nas universidades. Um dos objetivos do filme era justamente restaurar estes vasos comunicantes rompidos e trazê-lo para o presente”.

Lançado em junho nos cinemas argentinos, o filme teve cerca de 7.000 espectadores – um resultado que é comemorado pelo diretor, apesar de sua modéstia. Segundo Mato, documentários argentinos em geral não passam dos 3.000 espectadores. Fora do país, o filme recebeu o Prêmio do Júri do Festival de Valladolid, Espanha, em 2008.

Bem-intencionado e importante como seja em seus objetivos, Haroldo Conti – Homo Viator, no entanto, ressente-se de um formato antiquado. Formalmente, é um tanto ortodoxo e tradicional e oferece dificuldades de envolvimento a um público estranho à obra do escritor. A questão não é linguística - a dicção argentina é bem clara e não houve grandes problemas nas legendas - e sim do conceito do filme.

Curtas em foco
O debate da boa seleção de curtas da terceira noite competitiva do festival trouxe elementos para repensar a repercussão do formato. O mineiro Gilberto Scarpa, que exibiu aqui o premiado Os Filmes que não Fiz - ovacionado no Cine São Luiz – destacou que, feitas as contas dos vários festivais em que seu filme foi exibido, pode-se contabilizar um público de aproximadamente 100.000 espectadores. Para o cineasta, “o circuito de festivais – inclusive de filmes brasileiros no exterior – e cineclubes é uma rede de distribuição muito interessante. Mas que ainda não se tornou uma opção econômica, o que deveria acontecer”.

O cearense Petrus Cariry, que exibiu aqui A Montanha Mágica - um sensível retrato de suas saudades da infância -, defendeu que hoje não faz mais distinção entre realizar longas ou curtas-metragens. Autor do longa O Grão - exibido no Cine Ceará 2008 e com 22 prêmios em festivais internacionais – e diversos curtas premiados, Petrus atribui aos dois formatos a mesma importância. “Antes, eu via o curta como exercício de linguagem, agora não mais”, observou. Ele contou também que O Grão, que tem distribuição da empresa mineira Usina Digital, será lançado em salas do País em outubro. A previsão é de oito cópias 35 mm e seis digitais.

Os outros dois curtas da noite foram o concorrente paulista Flores em Vida, documentário sobre uma velhinha, Lázara Cristal, dirigido por Rodrigo Marques e Eduardo Consonni – filme que foi muito prejudicado pelo som inaudível das falas da personagem – e a boa animação Josué e o Pé de Macaxeira, de Diogo Viegas (RJ), uma divertida releitura nordestina da história infantil João e o Pé de Feijão.

Notícias relacionadas