Enquanto não chega por aqui o filme de Lírio, já exibido nos festivais de Recife e do Rio, além de outros internacionais, encerrou-se ontem a passagem dos concorrentes latinos da competição principal, com o longa mexicano Corazón del Tiempo, de Alberto Cortés. Também passou ontem o primeiro longa concorrente brasileiro, Se Nada Mais Der Certo, de José Eduardo Belmonte (premiado no Festival do Rio e também exibido em festivais nacionais e internacionais).
Primeira ficção filmada no território zapatista, na província de Chiapas, Corazón Del Tiempo levou quatro anos em produção. Aspira, como declarou seu diretor, ser um filme em que os indígenas rebeldes, que criaram uma província autônoma no sul do México, se reconheçam. O que, segundo Cortés, aconteceu.
Não se verá no filme o famoso subcomandante Marcos, porta-voz dos zapatistas e que já foi sondado para protagonizar diversos filmes, e que não foi seduzido por propostas de diretores como Oliver Stone, Luis Mandoki e Carmen Castillo, entre outros. Curiosamente, Marcos foi peça importante na logística que levou à produção de Corazón del Tiempo. Segundo Cortés, por ser cinéfilo, o subcomandante – que nem é a mais alta autoridade no comando zapatista – apoiou a preparação da produção imaginada pelo diretor, que incluiu apresentar o cinema à comunidade indígena, que vive na floresta e não tinha então nem luz nem acesso à TV ou ao cinema.
Cineclube na selva
Cortés imaginou então uma programação eclética, que incluiu toda a obra de Charles Chaplin, passando pelo cinema mexicano dos anos 40 e culminando na superprodução de ficção científica Matrix. O resultado foi a aprovação da comunidade ao desejo do diretor de realizar ali um filme, em que houve uma constante troca de impressões nos tratamentos do roteiro e se optou pela participação apenas de indígenas zapatistas como atores.
Usando um triângulo amoroso como fio condutor, Corazón del Tiempo busca revelar a vida cotidiana dos zapatistas, divididos entre tarefas de produção de alimentos e o apoio aos que aderem à vida militar, nas montanhas. Apesar disso, Cortés diz não sentir que seu filme tenha um acento antropológico ou etnográfico, como lhe colocou um jornalista no debate do filme, nesta manhã de domingo.
De todo modo, como aconteceu com outras produções latinas exibidas por aqui – numa seleção que não se mostrou excepcional -, o concorrente mexicano igualmente exige um tipo de espectador especial para engajar-se em sua história, extremamente simples e muitas vezes com uma pegada semidocumental. A atuação dos atores não profissionais revela sua fragilidade em diversos momentos, bem como a singeleza do roteiro. Um traço interessante, afinal, é como o dilema do triângulo amoroso, envolvendo uma jovem e dois rapazes, se resolve. Esta solução, levando em conta a vontade da moça contra as antigas tradições indígenas, dá razão ao comentário do diretor: “A tradição não é imóvel no mundo zapatista”.
Mas, de todo modo, o projeto todo é por demais atrelado aos seus agentes e produtores, aspirando a ser seu retrato fiel e soando um tanto didático. Vale como um documento político, mas é preciso ainda conferir como será visto pela comunidade mexicana fora de Chiapas, por exemplo. O que poderá ser checado a partir de 14 de agosto, quando estreará em salas de cinema de seu país.
Identidade em crise
Admitindo ter feito em seus quatro longas (Subterrâneos, A Concepção, Meu Mundo em Perigo e este Se Nada Mais Der Certo) um cruzamento entre um cinema autoral e independente, o cineasta José Eduardo Belmonte entende ter feito neles uma busca de identidade. Inclusive geográfica. Nascido no interior de São Paulo, estudando cinema em Brasília – onde se iniciou na carreira -, ele contou nunca ter se sentido pertencente a nenhum lugar. Mas não havia notado que, em todos os filmes, a própria carteira de identidade é questionada, perdida ou destruída, como o alertaram em debates anteriores.
Conhecido por personagens no limite – como neste filme, estrelado por um jornalista em crise profissional (Cauã Reymond), um taxista psicótico (João Miguel) e uma figura andrógina (Carol Abbras) -, Belmonte contou que vai mudar de tom o próximo filme. Será uma comédia, intitulada Billy Pig, cujos personagens serão um porco falante, um padre e golpistas de seguradora.
’Dentista’ de Che
Um dos convidados de honra do festival, no bojo de uma mostra especial de filmes sobre Che Guevara, é Luis Garcia Gutierrez, o “Fisin” – militante comunista histórico que passou de “dentista das estrelas” na Cuba pré-comunista (em que ele atuava na clandestinidade) a responsável pelo “mascaramento” físico de companheiros em fuga. O mais famoso desses companheiros, ninguém menos do que o Che, em fuga do Congo para a Bolívia, em 1965. Entre os recursos do disfarce, havia sobredentaduras, sapatos com saltos mais altos, colete que lhe dava uma corcunda e óculos que simulavam uma forte miopia, mas que na verdade eram dotados de miniespelhinhos retrovisores, para que o famoso guerrilheiro enxergasse quem vinha atrás dele.
Estas e outras façanhas de Gutierrez, que já foram objeto de dois livros dele, serão agora tema de um documentário, já em preparação, dirigido por Margarita Hernández, codiretora do Cine Ceará e cubana de nascimento. Ela já entrevistou três militantes ainda vivos “mascarados” por ele – Jorge Risquet, ex-integrante da coluna de Raúl Castro na Sierra Maestra e membro do comitê central do PC cubano; Raúl Valvez Vivó, reitor da universidade Nico Lopez, que prepara os quadros do partido; e o cineasta Alfredo Guevara, diretor do ICAIC, o instituto estatal do cinema cubano.
