08/08/2026

Passagem de Xuxa tumultua Gramado

post-img
Atraso, empurra-empurra, fãs histéricos tentando fotografar e chegar perto, convidados e jornalistas impedidos de entrar pela porta normal. Esse foi o balanço do dia mais tumultuado desta 37ª edição de Gramado, nesta quinta (13), por conta da homenagem à apresentadora Xuxa Meneghel.

Na melhor pose “rainha dos baixinhos”, Xuxa desfilou pelo tapete vermelho diante do Palácio dos Festivais, a sala de cinema oficial do evento, distribuindo beijos, sorrisos, autógrafos e alguns abraços. Inaugurou uma placa em sua homenagem no saguão, cerimônia trivial por aqui, mas que, no caso dela, determinou a quebra de toda a rotina dos outros dias. Os jornalistas que não foram sorteados para cobrir o evento da placa e o discurso dela na sala de cinema, independentemente de credenciados pelo festival foram, primeiro, impedidos de entrar. Depois, obrigados a ocupar lugares no fundo da sala até que o “evento Xuxa” terminasse.

A performance da apresentadora, que incluiu frases como “baixinha, como você cresceu!” a fãzinhas mirins e um discurso no palco onde ela insistia que se orgulha de ser “loura, povo e vencedora”, nada teve de espontânea. Segundo o jornal local de Gramado, ela teria recebido um generoso cachê de R$ 60.000,00. A direção fo festival negou, admitindo apenas ter custeado o jatinho e o carro blindado que transportaram Xuxa.

Perdidos na chuva
Por conta dessa muvuca inacreditável e descabida, atrasou uma hora o início da sessão do filme latino da noite, o concorrente argentino Lluvia - cuja diretora, Paula Hernández, e produtor executivo, Juan Pablo Galli, sofreram no palco os efeitos da barulhenta retirada da entourage de Xuxa e seus fãs, o que os prejudicou na apresentação de seu filme. Mas houve aplausos na sala quando o apresentador da sessão, o ator José Vitor Castiel, procurou retomar a normalidade do festival, dizendo: “Vamos voltar ao cinema”.

Lluvia é um exemplar desse cinema argentino moderno que busca fazer sentido nas entrelinhas dos personagens, criando tramas humanistas aparentemente a partir de muito pouco. Um fiapo de história se desenvolve a partir do encontro improvável entre Alma (Valeria Bertuccelli) e Roberto (Ernesto Alterio).

Num imenso congestionamento sob chuva, Alma está em seu carro, atulhado de coisas, como no meio de uma mudança. Roberto, que vem pela rua, no meio de um grupo de manifestantes, entra repentinamente no carro aberto. Depois do susto inicial, Alma o acolhe. O filme desenvolve-se a partir de um processo lento, de mútua descoberta, que não tem o desenrolar óbvio e clichê das comédias românticas. A verdade dos personagens ganha muito com isso.

Anos de chumbo
O concorrente brasileiro da noite, Em Teu Nome, de Paulo Nascimento (Diário de um Novo Mundo, Valsa para Bruno Stein) revisita os anos da ditadura, em 1970, fechando o foco numa história humana, em boa parte verídica – a biografia de João Carlos Bona Garcia, um ex-militante da luta armada, hoje juiz militar no Rio Grande do Sul. Na história, o personagem passa a chamar-se Boni (Leonardo Machado), um estudante de engenharia que entra para os quadros da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária). Na militância, pratica assaltos para financiar o grupo, o que o leva à prisão, tortura e ao exílio em diversos países, depois que é trocado pelo embaixador suíço Giovanni Enrico Buchner, no famoso “grupo dos 70”.

Ao lado de Boni, gravitam sua namorada e depois mulher, Cecília (Fernanda Moro), que se junta a ele no exílio e compartilha suas angústias, junto com os filhos nascidos um em cada país; amigos, como o professor (Nelson Muniz) e Lenora (Sílvia Buarque), militantes e exilados como ele; e o cunhado uruguaio (César Troncoso, de O Banho do Papa), que faz de tudo para ajudá-lo no Brasil.

Fechando o foco nesse microcosmo humano, o filme de Nascimento, bastante digno e com qualidade de produção, filmado na França, Chile, Marrocos e Brasil, coloca em primeiro plano as emoções. Procura evidentemente ganhar a empatia do público, especialmente com a história romântica de Boni e Cecília, pontuada em outra chave pelo amor triste entre o professor e Lenora. Com esta opção, esvazia o filme de contexto. É uma escolha discutível, pela diluição do tema que acarreta. Mas visivelmente o filme funcionou junto ao público na sessão de ontem aqui em Gramado.

Hoje, fecham-se as apostas, com a passagem dos últimos concorrentes, o uruguaio Gigante, de Adrian Biniez, premiado em Berlim, e o brasileiro Corpos Celestes, de Marcos Jorge (Estômago) e Fernando Severo. Amanhã é noite de distribuição de kikitos. Gramado 2009 está perto do fim.

Notícias relacionadas