27/07/2026

"Corumbiara" vence Gramado

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Corumbiara, de Vincent Carelli, foi o grande vencedor do Festival de Gramado 2009. Crônica sensível e engajada do massacre contumaz dos indígenas brasileiros, recebeu o kikito de melhor filme e também o de melhor diretor – este último, estranhamente dividido com o gaúcho Paulo Nascimento, do drama político Em Teu Nome, o segundo a polarizar as premiações entre os longas brasileiros.

Revelado no É Tudo Verdade 2009, onde recebeu menção honrosa, o documentário de Vincent Carelli venceu ainda três outros troféus Cidade de Gramado, um de melhor montagem (Mari Corrêa) atribuído pelo júri oficial, e dois outros de melhor filme da competição brasileira, um deles concedido por um júri formado por estudantes de cinema, outro por um júri formado por leitores de jornais de todo o País, escolhidos mediante um concurso prévio.

Ao receber estes prêmios, Carelli homenageou os sertanistas Marcelo Santos e Altair Nogaia, protagonistas da história truncada, dolorosa e necessária deste filme, realizado dentro do projeto Vídeo nas Aldeias – que há mais de 20 anos atua em favor de dar visibilidade ao Brasil indígena em filmes como este, para o qual prêmios deveriam funcionar para atrair distribuição e exibição. Espera-se que, finalmente, isto aconteça.

Canção de Baal, de Helena Ignez, recebeu o troféu de melhor filme para a crítica, além do de direção de arte (Fábio Delduque). Foi pouco para a liberdade e inventividade deste trabalho da emblemática atriz, mostrando personalidade atrás das câmeras.

Gaúchos na proa
Apostando mais na emoção do que na reflexão política, Em Teu Nome levou os kikitos de melhor diretor ex aequo, ator (Leonardo Machado, que fez aqui seu primeiro papel como protagonista) e o Prêmio Especial do Júri. Também ficou com o troféu Cidade de Gramado de melhor trilha musical (André Trento e Renato Müller).

O outro concorrente gaúcho, Quase um Tango, de Sérgio Silva, ficou com dois kikitos – melhor atriz (Vivianne Pasmanter) e melhor roteiro. Esse último foi particularmente descabido.

O aguardado Corpos Celestes, de Marcos Jorge e Fernando Severo, levou apenas um kikito, o de melhor fotografia (Kátia Coelho). Merecia mais.

Latinos
Na seção dos longas latinos, o peruano La Teta Asustada, de Claudia Llosa, venceu os kikitos de melhor filme, direção e atriz (Magaly Solier), além do prêmio Cidade de Gramado como melhor longa estrangeiro para o júri de estudantes de cinema.

O uruguaio Gigante, de Adrian Biniez, venceu os kikitos de melhor roteiro e ator, para o excelente estreante Horacio Camandule, além do de melhor longa latino para a crítica. O prêmio do ator, no entanto, foi dividido com o colombiano Matias Maldonado, da comédia Nochebuena, uma das duas divisões esquizofrênicas de prêmios da noite. Também não fez sentido dividir o prêmio de direção dos longas brasileiros entre Carelli e Nascimento. E a comédia colombiana não merece mais do que a perplexidade de ter sido selecionada no festival, que este ano teve, de modo geral, um bom conjunto de filmes.

A melhor fotografia ficou com Guillermo Nieto, por Lluvia, de Paula Hernández (Argentina), que foi considerado também o melhor longa latino para o júri de leitores de jornais. E o Prêmio Especial do Júri foi para o documentário La Próxima Estación, de Fernando Solanas, um registro poderoso do desmanche das ferrovias argentinas que eventualmente se ressente dos habituais derramamentos políticos do diretor. Mas se sustenta como denúncia.

Curtas
O Teu Sorriso, de Pedro Freire, atraiu três premiações. Foi o melhor curta para a crítica, além de receber o kikito de melhor atriz, para Juliana Carneiro da Cunha, e o prêmio aquisição do Canal Brasil. Acompanhando com delicadeza a intensa paixão de um casal maduro (Juliana e Paulo José), o filme foi selecionado também para a competição no próximo Festival de Veneza.

O júri oficial concedeu o kikito de melhor curta a Teresa, de Paula Szutan e Renata Terra, além do de melhor direção às duas jovens estreantes. Teresa teve também lembrada sua montagem (de Gustavo Ribeiro) pelo júri de estudantes de cinema.

O júri de leitores de jornais preferiu como melhor curta a animação Josué e o Pé de Macaxeira, de Diego Viegas, vencedor também do troféu de direção de arte e trilha sonora para o júri de estudantes de cinema.

O gaúcho A Invasão do Alegrete, que encena de maneira cômica uma hipotética guerra entre as cidades de Uruguaiana e Alegrete, recebeu do júri oficial os kikitos de melhor roteiro (para os diretores Davi Pires e Diego Muller) e ator (Miguel Ramos).

Olhos de Ressaca, de Petra Costa, recebeu o Prêmio Especial do Júri, sendo considerado também o melhor curta para o júri de estudantes de cinema.

O muito divertido Ernesto no País do Futebol, de André Queiroz e Thais Bologna, que acompanha as desventuras de um garotinho argentino morando no Brasil em ano de Copa do Mundo, recebeu o kikito de melhor fotografia. Também merecia mais.

Final de mais um festival, hora de balanço. Momento mágico – a premiação de Ruy Guerra com o kikito de cristal, sempre um artista muito articulado, digno de se ouvir. O momento mais triste, que ficará marcado na história de Gramado como um de seus piores de todos os tempos, sem dúvida, a passagem de Xuxa, seu discurso vazio e seu séquito de seguranças truculentos.

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