O filme de estreia do diretor contribui para mudar essa ideia. O Milagre de Santa Luzia, como Roizenblit define, “é uma viagem pelo Brasil tendo a sanfona como pano de fundo”. Essa jornada é conduzida pelo músico Dominguinhos, o maior sanfoneiro vivo do Brasil, que visita mais de dez cidades em todos os cantos do país, como Exu e Serrita (PE), Barra Mansa (MS), João Pessoa (PB) e Serra dos Aimorés e Turmalina (MG).
O embrião de O Milagre de Santa Luzia está no Projeto Memória Brasileira, de Myrian Taubkin, para o qual Roizenblit dirigiu os vídeo-cenários, em 2001, dando origem ao DVD O Brasil da Sanfona. “O resultado ficou muito interessante. Então pensei que poderia transformar isso em algo mais robusto, cinematograficamente falando”. A estrutura do projeto serviu em parte de base para o filme, mas o documentarista captou novos depoimentos e apresentações de sanfoneiros para o longa.
Cada região brasileira mostra como a sua cultura local influencia a sanfona e vice-versa. Com essa variedade regional, Roizenblit revela como ainda existe um vasto Brasil a ser descoberto. “O que mais me motiva é a ideia de mostrar o país, de como há coisas diferentes sendo feitas em todos os cantos. E a gente não conhece”.
Um destaque está na participação de músicos famosos, como Sivuca e Mario Zan, ambos mortos em 2006, Arlindo dos 8 Baixos e o gaúcho Renato Borghetti, entre outros. O único depoimento gravado na época do O Brasil da Sanfona é o do poeta pernambucano Patativa do Assaré, morto em 2002, que homenageia Luiz Gonzaga com um poema no qual chama o Rei do Baião de “artista colosso”.
Conduzindo essa viagem, Dominguinhos conversa e toca solo e com outros músicos. Mas acompanhar o sanfoneiro necessitou de uma adaptação do documentarista. “Ele é o máximo, muito calmo, faz tudo com muita tranquilidade, muito diferente da afobação do paulista. Tivemos que entrar no ritmo dele – o que não foi um problema”. Filmar com o sanfoneiro, porém, exigiu viagens apenas de automóvel, fossem quais fossem as distâncias. “O Dominguinhos não anda de avião. Então tivemos de planejar o filme de acordo com as viagens dele de carro. Não foi difícil, porque trabalhávamos com uma equipe bastante compacta”.
O Milagre de Santa Luzia chega aos cinemas de São Paulo e Rio de Janeiro na próxima sexta (28-8). Levar o filme às telas precisou contar quase que com uma ajudinha da própria santa. “Estamos fazendo um esquema de guerrilha, um esforço gigante para divulgar o projeto”, explica Roizenblit, que assumiu a distribuição por conta própria “como um cavalo de batalha pessoal pelo cinema independente”. “Os exibidores e distribuidores acabam se mostrando muito pessimistas com o filme, colocando-o na faixa de 5 mil espectadores. Eu acredito que temos um potencial maior. Por isso, optei pela distribuição independente, com o apoio de um exibidor que se interessou pelo projeto e o colocará em suas salas espalhadas pelo Brasil”.
Levando em conta a acolhida do documentário no Festival de Brasília 2008, onde recebeu o prêmio de melhor trilha sonora e o Vagalume de Melhor Filme (prêmio concedido por um júri de deficientes visuais), em novembro passado, Roizenblit pode estar certo. Em Brasília, o filme, exibido em competição, foi aplaudido diversas vezes ao longo da sessão e ovacionado por mais de quatro minutos depois do final. “Acredito também no boca a boca. As pessoas que gostam vão recomendar para seus amigos. Por isso é importante que seja bastante visto em seu primeiro final de semana, para poder continuar em cartaz”.
