04/06/2026

“Incomoda muito mais um casal de gays felizes”, diz diretor de filme sobre irmãos incestuosos

“Existe uma possibilidade dentro das impossibilidades”. É com essas palavras que o cineasta Aluizio Abranches (Um copo de cólera) define seu novo filme: Do começo ao fim, que estreia no país no próximo dia 27, depois de ter aberto o festival Mix, no último dia 14. No centro do longa estão dois meio-irmãos que se apaixonam e se envolvem, inclusive sexualmente.

Abranches disse ao Cineweb que tinha noção de que o longa iria causar polêmica mas está espantado com a reação que o filme tem recebido. “São assuntos delicados, tabus mesmo, a homossexualidade e o incesto. Eu queria fazer algo radical, mas ao mesmo tempo bonita. Os personagens tornam isso possível. A força do filmes está na aceitação que eles têm do amor um pelo outro”.

O diretor conta que se espantou ao ver tanta gente reclamando que no filme não há conflito. Os dois irmãos aceitam esse amor sem nenhum problema, assim como os outros personagens que não questionam, nem estranham esse relacionamento delicado. “Acho que o público não consegue suportar uma história com final feliz, algo otimista”. Mas, alega o diretor, não pense que Do começo ao fim retrata um mondo cor-de-rosa. “Existem conflitos, existem questionamentos, só porque não estão escancarados, muita gente está reclamando por causa disso. Mas o que as pessoas querem? Uma tragédia, que os dois rapazes apanhem, morram só porque se amam?”.

O diretor vai ainda mais longe. “O filme tem ética – que ninguém venha me dizer do contrário. O julgamento está do lado de fora do filme, eu deixei isso para o expectador. E descobri que incomoda muito mais um casal de gays felizes do que infelizes. Se eu deixasse um clima pesado, um final trágico, talvez as pessoas não reclamassem, mas essa abordagem também não me interessa”.

A ideia para criar o casal de irmãos, Thomás e Francisco, que se apaixonam surgiu na cabeça do diretor, que também assina o roteiro, há muitos anos, numa das vezes em que releu Os Maias, de Eça de Queiroz. O romance português mostra um amor impossível entre um irmão e uma irmã. Mas Abranches quis radicalizar ainda mais, colocando dois irmãos do mesmo sexo.

Agora, que o filme está pronto e prestes a chegar aos cinemas, o diretor pondera: “eu queria que as pessoas entrassem mais no filme, na relação dos dois. Que fossem assistir ao longa sem preconceitos. Acho até que ‘Do começo ao fim’ pode ajudar muitos adolescentes a entender a sua homossexualidade, e a se assumirem. Se for esse o papel do meu filme, já estou satisfeito”.

E não é apenas isso, Abranches explica que com seu filme prega um mundo mais tolerante. “O fato de os dois personagens serem irmãos reforça a liberdade homossexual deles. Eu vejo como algo que o destino lhes preparou”. Para abordar um tema tão complexo e complicado como o incesto, Abranches cita dois filmes: Os Sonhadores (2003), de Bernardo Bertolucci, no qual uma irmã e um irmão têm uma relação delicada e cheia de meios-tons, e O Sopro no coração (1971), de Louis Malle, no qual uma mãe e um filho passam uma noite juntos.

Abranches rodou Do começo ao fim há exato um ano, entre outubro e novembro de 2008, e fez o filme praticamente na surdina. O longa se tornou assunto apenas em maio deste ano, quando um teaser vazou para a internet, e despertou a curiosidade de muita gente – nem sempre positivamente. O próprio diretor conta que teve muita dificuldade de conseguir empresas para investir no seu longa, quando era ainda apenas uma sinopse. “Os patrocinadores se assustavam, ninguém queria colocar dinheiro no projeto”, conta o diretor que bancou boa parta do orçamento de cerca de R$ 2 milhões sozinho. “Eu acredito, porém, que muita gente dizia que não colocaria dinheiro no filme por causa do tema do incesto, mas, na verdade, eles tinham medo mesmo é da questão da homossexualidade”, dispara.

Quando finalmente começou a pré-produção de Do começo ao fim, Abanches ‘importou’ um diretor de fotografia, o suíço Ueli Steiger, que trabalhou em Hollywood em superproduções como Austin Powers: O agente ‘Bond’ Cama, O dia depois de amanhã e Godzilla – esses dois de Rolland Emmerich, que acaba de lançar 2012. Abranches conheceu Steiger no início dos anos de 1980, quando estudaram cinema na Inglaterra. “A gente ficou amigos, e sempre nos falamos. Sempre ensaiamos trabalhar juntos, mas nunca deu certo. Dessa vez, acabou acontecendo, ele gostou da história, e veio para o Brasil para filmar comigo. Ele até me disse que abriu mão de fazer 2012 para fazer o meu filme”.

Se por um lado, o tema de Do começo ao fim assustou possíveis investidores, por outro, tem feito a alegria de psicólogos e educadores já que o filme levanta questões complexas e raramente exploradas na ficção. “Eu tenho feito palestras, bate-papos em várias associações”, explica o diretor. “Os psicólogos, em especial, gostam de discutir o assunto. Vários me contaram que ainda não existe nada documentado, como sobre o Complexo de Édipo”.

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