É o décimo longa de Mocarzel, nascido em Niterói (RJ) e radicado em São Paulo, e marca uma mudança de tom. Sem uma única entrevista, apoiado apenas em falas ocasionais e canções de trabalho, com a câmera na mão e usando, pela primeira vez em sua carreira, uma trilha sonora, o diretor de À Margem da Imagem (2003) e À Margem do Concreto (Prêmio de Público neste festival em 2005) partiu para uma viagem sensorial neste novo trabalho. Ao apresentar o filme, o cineasta fez questão de admitir sua admiração pela escola do documentário mineiro, marcada pela videoarte e a experimentação de linguagem, citando nominalmente Cao Guimarães, Pablo Lobato e Marília Rocha – esta última, diretora de Aboio (vencedor do festival É Tudo Verdade 2005) e que apresenta aqui depois de amanhã o último longa concorrente, A Falta que me Faz.
Se é verdade que leva sua proposta às últimas conseqüências e o faz com belíssimas imagens, não resta dúvida de que Quebradeiras é, assumidamente, etnográfico – tem inclusive o selo Etnodoc, marca do benefício recebido pelo primeiro Edital de Apoio à Produção do Documentário Etnográfico do Ministério da Cultura, em 2008.
Esta carteira de identidade não denota, certamente, nenhum prejuízo à qualidade do filme – que deverá ser fruído, como sugere o diretor, de maneira sensorial, para entrar, realmente no mundo das quebradeiras de coco. Um mundo que parece povoado por quase nenhum homem jovem, e que é mostrado no contexto de uma imensa floresta de babaçus, onde o esforço físico das quebradeiras se expõe sem nenhum véu, numa atmosfera quente, quase sufocante, mas impregnada também de uma beleza bruta.
As pequenas figuras dessas mulheres contra o amplo babaçual de onde tiram o sustento se humaniza, também, quando algumas são vistas tomando banho de rio, seios à mostra, revelando o erotismo de corpos de pessoas comuns, não sanitizados pela estética da publicidade. A beleza dessa vida natural, cotidiana e dura também se filtra em momentos de pura contemplação – como quando a câmera se posta atrás de uma fina cortina, dentro de um balde de um poço, emergindo da água.
Se não se nega valor a esse tipo de trabalho e experimentação, realizado com afinco, também não se deixe de admitir a dificuldade de sua fruição pelo público. É o tipo de cinema para o qual se tem que educar os sentidos.
Curtas
Vistos seis curtas da competição 35 mm, há que se destacar a alta qualidade do concorrente paulista Bailão, de Marcelo Caetano. Num curta enxuto de 16 minutos, o diretor consegue captar diversos aspectos do mundo homossexual da capital, a partir de um baile masculino, no centro de São Paulo. Perpassam o filme depoimentos como do escritor João Silvério Trevisan e outros, que sinalizam os preconceitos contra os homossexuais, os dilemas criados pela AIDS e a luta de organizações, estimulada justamente pela doença e que também abriu espaço a mudanças de atitude. Além disso, a cidade de São Paulo é revelada com uma beleza própria, na cuidada fotografia de Julia Zakia.
Tem suas qualidades o concorrente gaúcho, a comédia Amigos Bizarros de Ricardinho, de Augusto Canani (que traz no DNA, sem nenhum demérito, o humor gaúcho à la Jorge Furtado e companhia); Ave Maria ou Mãe dos Sertanejos, de Camilo Cavalcante, um mergulho quase etnográfico no sertão, embalado pela música Ave Maria Sertaneja, na voz de Luiz Gonzaga.
Homem-Bomba, produção carioca dirigida pelo gaúcho Tarcísio Puiati, revisita o universo de um morro carioca dominado pelo tráfico, mas não consegue sustentar satisfatoriamente o pretendido tom poético-surrealista – em que pese o natural talento de seus pequenos atores, Alec Naftali e Marcelo Melo, ambos de 11 anos. O mesmo acontece com Água Viva, de Raul Maciel (RJ), em que a economia de linguagem acaba sendo um obstáculo à compreensão.
Dias de Greve, de Adirley Queirós (DF), localiza-se no ambiente proletário da Ceilândia, grande cidade-satélite de Brasília, mas não consegue ultrapassar um naturalismo um tanto estreito – mas falta uma nota de originalidade a mais para emocionar.
