Quem assiste ao filme, que estreia em circuito nacional nesta sexta-feira, nem desconfia como foi penoso para Gloria fumar feito uma chaminé. Afinal, sua personagem parece sentir tanto prazer quando dá uma tragada. Fumar convincentemente, no entanto, não foi o único desafio. . “Tive de aprender a tocar violão e a cantar uma música também. E sou eu quem canta a canção nos créditos finais”.
“É proibido fumar” teve sua primeira exibição no Festival de Brasília, no final de novembro, e saiu de lá consagrado, com oito prêmios do júri oficial, entre eles filme e roteiro, além do troféu de melhor filme para a crítica. Aos 46 anos, e 40 de carreira, Gloria ficou surpresa com o troféu de melhor atriz. “Brinco que o prêmio foi aos 46 do segundo tempo, fazendo um trocadilho com a minha idade. É a primeira vez que eu ganho algo assim no Brasil. Foi muito emocionante”. Aliás, Gloria se consagrou como musa do Festival, com dois filmes sendo exibidos – É proibido fumar em competição, e Lula – O filho do Brasil, que abriu o evento hors concours.
São dois filmes muito distintos, tanto em tom, quanto orçamento. Mesmo assim, a atriz diz que o trabalho do ator é praticamente o mesmo, cheio de desafios e alegrias. “Não me importo com o orçamento de uma produção, o que me atrai, me faz aceitar o trabalho é a história. Cada filme tem a sua proposta. Um é um drama intimista com toques de humor negro, o outro é um épico sobre a ascensão de uma pessoa”.
O projeto de É proibido fumar começou no Festival de Recife de 2003, quando a Anna Myulaert apresentava seu longa de estreia Durval Discos. “Eu gostei muito do filme. Estava com meu marido [o cantor Orlando Morais], e conversamos algumas vezes com a Anna. Ao longo dos anos mantivemos contato, mas quando ela me mandou o roteiro, levei 5 meses para conseguir sentar e ler. Por isso levei um tempo para aceitar o convite”.
“Foi uma empatia logo de cara entre nós duas, temos muita coisa em comum, somos mães”, conta a diretora e roteirista. Além disso há algo ainda mais forte que liga as duas e o filme: ambas são ex-fumantes. “A ideia para É proibido fumar me veio em 2000, quando abandonei o cigarro e percebi que começaram a se destacar vários elementos negativos que existiam em mim, mas estavam escondidos de alguma forma, como se fumar disfarçasse algumas coisas. Isso me chamou a atenção e foi um início para criar um personagem e uma situação.”
Quando começou a trabalhar em É proibido fumar, Anna vinha de uma experiência muito feliz com Durval Discos, que levou 6 Kikitos em Gramado, em 2002, e queria repetir os mesmos elementos. “Interessava-me fazer novamente um filme com poucos personagens, poucas locações e muita música”. Com o filme definido e a atriz escolhida, a diretora saiu à procura de um ator para contracenar com Gloria, no papel do músico Max. “Eu queria alguém que contrastasse com ela, com jeitão de bad boy, mas que também tivesse doçura. Depois de muito teste, encontramos o Paulo Miklos”.
O músico dos Titãs, que iniciou a carreira de ator em 2002, em O Invasor, foi a escolha perfeita para completar o casal central. “O Paulo trouxe um monte de coisas para o filme: figurino, algumas frases e até a trilha sonora. Ele me mostrou mais de cem músicas que combinavam com É proibido fumar. E me ajudou muito a selecionar as músicas”, conta a diretora.
A trilha sonora, aliás, é um caso à parte nos filmes de Anna. Tanto em Durval Discos, como aqui, a música tem um papel central. Em É proibido fumar, o gosto musical define muito bem Max e Baby, ressaltando especialmente suas diferenças. “Ela gosta de Villa-Lobos, o que remete ao passado, já ele prefere músicas mais animadas. Aliás, o filme tem tanta música que comprar os direitos de tudo que a gente precisava estourou nosso orçamento”.
Se Baby e Max têm personalidades tão opostas, Gloria e Miklos também trabalham de formas diferentes num set. “Foi um desafio colocar os dois em cena. Cada um age de uma forma. Ela é muito mais focada, ele gosta muito de improvisar. Tive que encontrar um meio-termo e colocar os dois no mesmo nível. Acho que deu certo”, comenta Anna.
Outra coisa que É proibido fumar tem em comum com Durval Discos é o final em aberto. “Gosto de um final que instiga o público a pensar a discutir. No caso desse longa, já vi pessoas com as mais diversas formulações: uns veem como algo romântico, outros com cinismo. Há até quem não veja um final aberto, que acha que há uma conclusão definitiva. Acho tudo isso um barato!”.
Agora, além de preparar o lançamento de É proibido fumar, Anna trabalha também no lançamento de seu primeiro telefilme Para aceitá-la continue na linha, que será exibido na TV Cultura (SP) no próximo dia 12. O filme traz em seu elenco Bete Dorgam e Pierre Santos. “A história gira em torno de um falso sequestro e é bem mais dramática do que meus outros filmes. É a personagem feminina presa ao telefone o tempo todo. Do masculino ouvimos apenas a voz.” Depois da exibição do telefilme, Anna pensa em fazer uma nova versão para exibir em cinemas no próximo ano. “Existe material para ampliar, fazer um corte maior para ser
