Não é apenas o bairro onde cresceu que vem da memória do diretor quando começou a rodar Praça Saens Peña. O personagem central é um professor, assim como a mãe de Reis. “Busquei inspiração até nos amigos da minha mãe. Não é um filme autobiográfico, mas na tela tem muito do que conheço. É um universo do qual me sinto muito à vontade para comentar”. Outra pessoa muito confortável para falar da Tijuca e que faz uma participação especial no filme é o músico e letrista Aldir Blanc, autor de músicas como “O mestre-sala dos mares” e “Caça a raposa” (ambas em parceria com João Bosco).
“O Aldir é um dos moradores mais apaixonados e conhecidos da Tijuca”, explica o diretor. No filme, Paulo, interpretado por Chico Diaz, é um professor que está escrevendo um livro sobre o bairro e, num determinado momento, consegue entrevistar o músico. “A ideia da participação surgiu lá pelo terceiro tratamento do roteiro. Um amigo jornalista me arrumou um contato com a mulher do Aldir e disse que eu devia falar com ela primeiro, pois é ela quem agenda as entrevistas”, conta do diretor. No filme, o personagem faz o mesmo caminho para conseguir marcar uma entrevista com o músico.
Segundo Reis, a filmagem com Aldir rendeu uma entrevista de 40 minutos, mas apenas 5 ficaram no filme. “Foi muito difícil escolher o que devia entrar; ele falou muita coisa interessante. Pretendo colocar a conversa na íntegra como extra no DVD”, adianta. Na hora da filmagem não havia roteiro e o diretor deixou Diaz livre para interagir com o músico. “Durante a conversa surgiu uma frase que me agradou muito, que resume bem o espírito do filme. É algo como: ‘há uma união entre a classe média e o morro na Tijuca’”.
“Eu sou da classe média, faço parte disso. Queria falar de uma classe média que a gente pouco vê no cinema e na televisão. Esse grupo sempre é caricato. Eu queria mostrar o suburbano normal, não os que se vestem de forma esquisita, mas aqueles que suam todo mês para pagar o aluguel, fazer as compras”. A julgar pelos resultados em festivais, Reis alcançou seus objetivos. No Cine PE, em abril passado, por exemplo, o filme levou premio de direção, ator (Diaz) e atriz (Maria Padilha), atriz coadjuvante (a estreante Isabela Meirelles).
Elenco empenhado
O prêmio para Diaz e Maria Padilha parece não vir por acaso. A ideia de fazer o filme partiu deles, depois de assistirem ao documentário “A cobra fumou”, que Reis lançou em 2002. “Eu os conheci numa festa e eles, que já se conheciam [os dois contracenaram em Matadores, de Beto Brant], haviam gostado do meu filme e queriam trabalhar comigo”. O diretor, que já pretendia fazer um filme sobre a praça Saens Peña, viu nessa parceria a oportunidade para concretizar o projeto.
“Eles estão comigo desde a primeira linha que escrevi do roteiro. Isso aconteceu em 2003 e, até as filmagens, em 2007, nos encontramos diversas vezes para discutir roteiro, encaminhamento de personagens”, explica. “Eles se apropriaram dos personagens com muita antecedência”. O resultado é um drama centrado numa família de classe média, moradora da Tijuca, que sonha em comprar um apartamento próprio.
“Eu escrevi o filme pensando neles dois; buscamos personagens diferentes daqueles que o público está acostumado a vê-los interpretar. O Chico sempre é nordestino, bandido ou matador. Agora faz um professor de literatura. Já a Maria, que sempre é dondoca, aqui é uma suburbana que trabalha numa lanchonete”, explica.
Reis, que é um documentarista experiente, quis levar o documental para a sua primeira ficção. “As cenas na rua, por exemplo, têm muito pouco roteiro. A gente deixou tudo muito livre para haver uma interação entre as filmagens e as pessoas, os sons, as cores da rua”, explica. Além disso, as cenas internas foram todas rodadas em locações, a maioria delas em um apartamento em frente à paça Saens Peña, que serve de cenário para a família de protagonistas do filme, cujo orçamento de produção e lançamento ficou em torno de R$1 milhão.
