
“O É Tudo Verdade tem cumprido um papel importante de valorização do documentário como gênero cinematográfico, ao exibir numa janela específica anual a diversidade do cinema não-ficcional”. É esse o balanço que o crítico, e agora também documentarista Amir Labaki fez ao Cineweb sobre o festival, do qual é diretor, que abre em São Paulo nesta quinta (8) a sua 15ª edição, numa sessão para convidados, com o longa Uma noite em 67, de Renato Terra e Ricardo Calil.
Labaki aponta também que o documentário brasileiro tem ganhado força e que “é uma tradição na história do cinema brasileiro mas vinha sendo subestimada”. Em sua opinião, o grande interesse anualmente manifestado pelo público e pela crítica “tem ajudado a romper barreiras e a ampliar a presença de documentários nacionais no mercado”. Como prova disso, cita números: anteriormente à fundação do festival, em 1996, em média dois documentários brasileiros entravam em circuito por ano. No ano passado, esse número chegou à casa dos 30. “O interesse do público cresceu, indubitavelmente, assim como o da imprensa e das universidades. A cultura do documentário se fortaleceu no Brasil”, acredita.
Para o documentário brasileiro, o É Tudo Verdade funciona como uma espécie de vitrine e termômetro de como o filme pode ser recebido pelo público e imprensa. Em edições anteriores, foram consagrados longas como Cidadão Boilesen, de Chaim Letwski, e Pan-Cinema Permanente, de Carlos Nader, que pouco depois estrearam comercialmente.
Neste ano, 7 longas brasileiros disputam os prêmios e a atenção do público: Arquitetos do Poder, de Vicente Ferraz e Alessandra Aldé; O Contestado – Restos Mortais, de Sylvio Back; Eu, o vinil e o resto do mundo, de Lila Rodrigues e Karina Ades; Fora de Campo, de Adirley Queirós; Os representantes, de Felipe Lacerda; Programa Casé – O que a gente não inventa, não existe, de Estevão Ciavatta”; e Terra deu, terra come, de Rodrigo Siqueira.
No entanto, quando o assunto são documentários estrangeiros, o panorama é um pouco diferente. Nenhum dos longas internacionais premiados nas edições do É Tudo Verdade tiveram uma estreia comercial. Labaki acredita que a dinâmica do mercado para esse gênero seja mais lenta. “Mas não se trata de uma questão específica dos vencedores do É Tudo Verdade. Mesmo os finalistas e vencedores do Oscar do gênero enfrentam imensas dificuldades para chegar às telas nacionais, quando o fazem”, observa.
Até o trabalho de documentaristas premiados e famosos, como Michael Moore, não conseguem achar espaço no circuito exibidor. O mais novo longo do diretor, “Capitalismo: Uma história de Amor”, será exibido no É Tudo Verdade, e depois lançado diretamente em DVD no Brasil. A previsão de lançamento é para junho.
Conferências e homenagens
Segundo Labaki, o festival deste ano deve contar com a participação de 15 convidados internacionais. A maioria deles participará da 10ª Conferência Internacional do Documentário – evento paralelo ao É Tudo Verdade que acontece entre 14 e 16 de abril, na Cinemateca Brasileira (SP). Seu tema é “Filme vira filme: o documentário de arquivo”, abordando a questão dos arquivos no cinema não-ficcional.
Nesses dez anos de Conferência, o diretor do É Tudo Verdade aponta que o debate sobre o gênero se “sofisticou pela presença anual de acadêmicos, críticos e cineastas, brasileiros e internacionais, em torno de discussões cuidadosamente orientadas segundo eixos temáticos definidos ano a ano”.
“Um dos principais teóricos contemporâneos sobre o documentário, o americano Bill Nichols, participará tanto do júri internacional quanto da mesa de encerramento da Conferência, no dia 16”, antecipa o diretor do festival. Além de Nichols, o debate contará com o professor da Universidade Federal Fluminense, João Luiz Vieira, e a mediação do professor e ensaísta Ismail Xavier.
Já o júri internacional contará com o curador tcheco Marek Hovorka e o documentarista israelense Yoav Shamir, diretor de Checkpoint” (exibido no festival em 2004), que também apresentará seu novo longa, Difamação. O júri brasileiro contará com Andréa Pasquini (Fiel), o crítico e professor Carlos Eduardo Lourenço Jorge, e a produtora e documentarista Mariza Leão (Meu nome não é Johnny, Zuzu Angel).
As homenagens deste ano serão ao fotógrafo e documentarista brasileiro Benedito Junqueira Duarte (1910-1995) e ao francês Alain Cavalier. Ao explicar a escolha dos dois homenageados, Labaki aponta que o diretor brasileiro é um pioneiro algo esquecido. “Como poucos, ele filmou a evolução de São Paulo de pacata capital de província à megalópole. Seus filmes trazem o apuro formal do olhar sofisticado do fotógrafo, arte na qual foi também um dos nomes essenciais por aqui na primeira metade do século XX”.
Cavalier, por sua vez, é “um cineasta com rara sensibilidade para o outro e para o mundo ao seu redor”. O cineasta francês não poderá vir ao Brasil para participar do É Tudo Verdade, mas mandou um “representante”. “Ele nos enviou um documentário curto de 7 minutos especialmente realizado para o festival, intitulado Carta da França. É um grande presente para o É Tudo Verdade”, comemora Labaki.
O documentário que Labaki dirigiu, 27 Cenas sobre Jorgen Leth, deverá chegar aos cinemas em agosto deste ano.
No Rio, o festival começa na sexta (9), com Segredos da Tribo, de José Padilha (Garapa, Tropa de Elite). Nas duas cidades, o evento vai até o dia 18, e apresentará um total de 71 documentários, de 27 países, em sessões gratuitas. Para mais informações sobre os filmes e a programação completa, acesse o site do festival.
