No meio do rio entre as árvores marca o retorno de Jorge Bodanzky à direção de um documentário em longa-metragem, gênero que ele visitou pela última vez em 1985, quando codirigiu com Helena Salem Igreja dos Oprimidos. O novo filme, que é exibido fora de competição no Festival É Tudo Verdade a partir desta quarta (14) no Rio de Janeiro, é resultado de um trabalho que o documentarista realiza desde a década de 1990 no norte do Brasil. O longa mostra vídeos feitos por moradores de comunidades ribeirinhas do Amazonas e como foram produzidos.
“O filme dá voz a essas pessoas e elas mostram que são muito articuladas, que têm uma consciência ecológica muito aguçada. Bastante ao contrário daquilo que se costuma pensar sobre elas”, disse o diretor ao Cineweb. Bodanzky ressalta que No meio do rio entre as árvores é o olhar interno dessas comunidades, como elas se organizam. “São pessoas que moravam nessas regiões muito antes de se tornarem área de preservação ambiental”, observa.
Para que essas pessoas, muitas deles jovens, pudessem participar das oficinas, fazer seus próprios vídeos, a tecnologia foi um fator importante. “A câmera digital com sua simplicidade para manuseio, para gravar as coisas, facilita muito o nosso trabalho. Além disso, os jovens têm bastante contato com as novidades. Existem lan houses por lá, todo mundo tem celular”.
Por isso, não há um estranhamento no uso da câmera, nem quando eles veem a si mesmos nas imagens captadas. “Tivemos sempre o cuidado de mostrar para eles tudo aquilo que eles gravavam. Todo dia víamos as imagens captadas e fazíamos uma bate-papo sobre isso”. O resultado, como se vê em No meio do rio entre as árvores, é surpreendente. Uma das participantes das oficinas diz que, com essa experiência, ela pode “aprender a valorizar o que está além da lente”.
Ao todo, Bodanzky tinha cerca de 50 horas de material gravado pelos participantes das oficinas e imagens desse trabalho. Com a ajuda de seu montador, Rodrigo Menecucci, o documentarista fez um filme de pouco mais de uma hora. “Era um material muito rico. Na hora de editar o filme, o que nos guiou foi exatamente a oportunidade de dar espaço para essas pessoas falarem, revelarem a si mesmas”.
Ficção e documentário
Em meados dos anos de 1970, Bodanzky foi pioneiro ao combinar documentário e ficção em seu longa Iracema – Uma Transa Amazônica, codirigido por Orlando Senna, um recurso que hoje é bastante utilizado no cinema. “Atualmente, é muito tênue a linha que separa o documentário e a ficção. Existem muitos filmes em que se torna impossível separar um do outro”.
Para seu próximo projeto, no entanto, Bodanzky espera levar às telas uma história que planeja há anos, sobre a maestrina Chiquinha Gonzaga. “É um projeto no qual trabalho há muito tempo. Será um filme de ficção, mas ainda estamos captando verba para isso”. Antes disso, o documentarista pretende lançar em cinema, no segundo semestre, “No meio do rio entre as árvores”.
No É tudo verdade, o filme tem sua primeira sessão nesta quarta (14), no Rio de Janeiro, às 19h, no Unibanco Arteplex. Depois, será reprisado na quinta (15), às 11h, no Ponto Cine, e na sexta (16), às 17h, no Cine Santa. Em São Paulo, a primeira sessão acontece na sexta (16), às 19h, e no sábado (17), às 17h, ambas no Espaço Unibanco de Cinema.
