O homossexualismo reprimido e as cicatrizes da ditadura militar estão no centro de Hoje, o novo projeto cinematográfico da diretora paulista Tata Amaral (Antônia, Um Céu de Estrelas), que tem o ator Ney Latorraca confirmado para o papel principal.
Latorraca viverá Alfonso, um ex-crítico de cinema e professor aposentado que sempre tentou esconder sua homossexualidade e é confrontado por uma sobrinha lésbica, Lúcia, para assumir-se e acompanhá-la à Parada Gay, em São Paulo. A atriz cogitada para este papel é Caroline Abras, conhecida pelo curta de Esmir Filho Alguma Coisa Assim e pelo longa Se nada mais der certo, de José Eduardo Belmonte.
Esta parte da trama é inspirada na peça Galeria Metrópole, de Mário Viana, de 2004, que trazia o ator Rubens de Falco no papel principal. Outro núcleo do roteiro, assinado por Jean-Claude Bernardet e Rubens Rewald, remete ao livro Prova Contrária, de Fernando Bonassi e refere-se à herança da repressão política no período militar.
Neste outro núcleo, os personagens são Vera (papel para o qual se cogita Marieta Severo), uma ex-guerrilheira que recebe indenização do Estado pelo marido desaparecido e dado como morto, Ercílio (papel que poderá ser de Osmar Prado). Mas um dia Ercílio reaparece.
Segundo a diretora, a definição do elenco só poderá acontecer quando sair a parte que falta para completar o orçamento, estimado em R$ 4 milhões, e se puder começar as filmagens, o que ela gostaria que acontecesse no início de 2011. Ela admite que há possibilidade de mudança de algum nome em função da agenda dos intérpretes. “Pode acontecer que, na hora em que pudermos filmar, algum deles tenha problemas de agenda, mas a gente espera que não”, salienta. O projeto já conta com aproximadamente R$ 1,3 milhões dos editais da Lei do Audiovisual e de patrocínios da Petrobras e prefeituras de São Paulo e Paulínia e mas ainda concorre ao programa de fomento do governo paulista para completar-se.
Tata levou o projeto também a inúmeros possíveis parceiros privados mas, até o momento, não houve retorno. Falando sobre a possibilidade de algum preconceito sobre alguns dos temas abordados, comenta: “Não que eu saiba. Hoje as pessoas nem expressam esse tipo de restrição, porque é crime”.
Desenvolvendo o projeto há cinco anos, desde quando terminava Antônia – longa que rendeu duas temporadas de uma minissérie na TV que foi indicada ao Emmy em 2007 -, a diretora lamenta o grande espaço de tempo que se leva no Brasil para concretizar um filme: “É um sistema em que se começa o tempo todo como que do zero. Toda a experiência que se tem e os projetos anteriores bem-sucedidos não aceleram os novos”.
Enquanto isso, Tata voltou a produzir para a TV a minissérie Trago Comigo e os documentários O Rei do Carimã e Mascarianas. Também assinou o curta Carnaval dos deuses, parte de um longa coletivo sobre o tema da liberdade de pensamento e religião, que está sendo exibido no Sesc TV.
