Para enfrentar a fria lógica comercial que marginaliza os filmes que, à primeira vista, não possam ser classificados como potenciais blockbusters, o cineasta André Klotzel decidiu adotar uma estratégia de guerrilha para lançar seu novo filme, a comédia de humor negro Reflexões de um liquidificador, marcando sua estreia em plena segunda-feira (9).
‘É preciso procurar outros caminhos. Não se pode considerar a falta de alternativas. Não sei se essa estratégia é a melhor, mas é a que estamos fazendo”, disse em entrevista ao Cineweb o diretor, que tem em seu currículo filmes como Marvada Carne (1990) e Capitalismo Selvagem (1993). A estratégia que ele cita consiste em colocar o longa, estrelado por Ana Lúcia Torres e com a voz de Selton Mello, em cartaz apenas em uma sala de São Paulo (o Espaço Unibanco) a preços mais baixos do que os ingressos convencionais – variando entre R$ 2 e R$ 16. Além disso, todas as sessões são acompanhadas de um curta e as duas últimas de cada dia também de um show de comédia de stand up.
Klotzel defende que os filmes precisam de um tempo em circuito para fazer um boca-a-boca e serem descobertos pelo público. “Fiquei espantado quando ‘É Proibido Fumar’ [lançado no final do ano passado] ficou tão pouco tempo em cartaz. Um filme ótimo, ganhador de diversos prêmios, com atores bastante famosos, ótimo potencial de público e que teve uma passagem meteórica pelas salas de cinema”, lamenta.
Reflexões de um Liquificador ficará 8 semanas em cartaz na mesma sala. Segundo o diretor, tempo suficiente para ser descoberto e recomendado pelo público. Ainda não há datas definidas para lançamentos em outras cidades, mas Klotzel pensa em recorrer a esse mesmo esquema, ou algum parecido. “É uma experiência, uma aposta. Vamos ver o que acontece para que possamos aperfeiçoar esse tipo de lançamento diferenciado”. Ele também não descarta a possibilidade de outros chegarem às salas de uma forma diferente.
Humor negro dá o tom ao filme
“Reflexões de um Liquidificador” é uma comédia com tons bem negros, mas nada hermético. Pelo contrário, é um filme de apelo popular sem ser popularesco, ou seja, com inteligência. Klotzel conta que foi difícil achar o tom certo, um humor negro que não beirasse o terror. “Acho que foi uma conjunção de fatores: o elenco, a música [de Mario Manga], a fotografia [de Ulrich Burtin]. O filme foi muito pensado, muito planejado. Não podíamos pesar a mão”.
O roteiro assinado pelo dramaturgo Jose Antonio de Souza tem como protagonista Elvira (Ana Lúcia Torres), uma mulher de meia idade, classe média baixa, cuja vida muda radicalmente depois do sumiço do marido. Seu confidente é um liquidificador antigo – dublado por Selton Mello –, que funciona como uma espécie de cúmplice e voz da consciência. “A ideia do filme é procurar o lado belo das pessoas, especialmente naquelas que não são jovens ou ricas”, comenta.
Klotzel confessa que só foi pensar na escolha da atriz que faria a protagonista perto das filmagens, que aconteceram em 2008. “Para falar a verdade, quando mencionaram a Ana Lúcia, eu não conhecia muito o trabalho dela. Ela nunca tinha sido protagonista em cinema. Quando comecei a pesquisar, descobri que ela é uma grande atriz respeitadíssima, uma grande dama do teatro”. A escolha de Selton, por sua vez, foi por conta das habilidades vocais do ator, que também já trabalhou como dublador em desenhos animados, além de um curta (“Sete vidas”), no qual ele empresta a voz a um gato.
Durante as filmagens, como Selton não estava presente, Klotzel ou alguém de sua equipe lia as ‘falas’ do liquidificador para que Ana Lúcia tivesse com quem contracenar. “Pensamos em outras alternativas, como ponto eletrônico, ou mesmo outro ator, mas nenhuma funcionaria bem. Então nós líamos a fala sem qualquer entonação, de forma neutra. Mais tarde, quando as cenas estavam rodadas, Selton gravou a sua parte. Ele interagia com a interpretação da Ana Lúcia”.
