Ao contrário de seus filmes, nos quais virtualmente não há diálogos, o diretor malaio Tsai Ming-Liang gosta de conversar. Embora não seja possível entender bem o que ele diz – ele fala apenas mandarim e bem pouco inglês –, dá para se compreender as suas intenções apenas pelos seus olhares e gestos. Esses, aliás, confessa o cineasta, o ajudaram muito em seu mais recente trabalho, o drama Face, feito a convite do Museu do Louvre e exibido na mostra competitiva do Festival de Cannes de 2008.
A pronúncia correta do nome dele – Cài Mingliàng – é só um detalhe a ser descoberto na mostra “Tsai Ming-Liang – O homem do tempo”, que está em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo até o próximo dia 28, no do Rio até 12 de dezembro, e no de Brasília de 2 a 19 de novembro. Com curadoria de João Juarez Guimarães, o festival traz ao Brasil a obra completa desse cineasta que já ganhou prêmios em Berlim, Cannes e Veneza.
Aos 53 anos, no entanto, Tsai confessa que nunca parou para pensar sobre de onde vem a inspiração para criar obras tão singulares. “É difícil dizer de onde vem um filme. O resultado é um conjunto de impressões, sentimentos. É quase um fenômeno resultante da troca entre pessoas”, disse em entrevista ao Cineweb. O diretor confessa que quando escreve seus roteiros, eles são apenas rascunhos daquilo que os filmes virão a ser. “É apenas um material a se mostrar para os patrocinadores para conseguir o dinheiro. Na hora de filmar, aquilo que está escrito conta muito pouco. O que vale é a criatividade”.
Cinema e café
Ciente de que seus filmes são pouco convencionais e, consequentemente, pouco comerciais, Tsai quer mesmo é se expressar por meio do cinema. Para ganhar dinheiro de forma mais concreta, ele confia em uma marca de café que criou com o ator Lee Kang-sheng e a atriz Lu Yi-Ching, o café Tsai Lee Lu. “Desde pequeno sempre fui apaixonado por café. Lançar a marca foi combinar essa paixão com uma forma de ganhar dinheiro”, brinca.
O café pode ser famoso em Taiwan, porém, fora de lá, o que garante a notoriedade do diretor são obras como O sabor da melancia, Adeus Dragon Inn e Vive L’Amour. “Meu cinema é muito diferente daquele que faz sucesso comercialmente. Hollywood nivelou muito por baixo o cinema no mundo. Parece que a criatividade tem diminuído, e, para mim, isso é resultado da globalização. O gosto do público está cada vez mais mediano”.
Quando jovem, o diretor confessa que via mais filmes hollywoodianos e japoneses, que eram os que chegavam a sua cidade, no sudeste da Ásia. Só quando foi para Taiwan que teve oportunidade de conhecer obras de outros lugares do mundo. “Foi aí que percebi que o cinema tinha outras possibilidades, outras tendências. Entrei em contato com outras culturas”.
Essa descoberta de novas culturas serviu como uma troca simbiótica para Tsai, que em 2005 foi convidado pelo Museu do Louvre para fazer um filme para guardar no acervo da instituição. “Foi uma honra muito grande, mas também um desafio. A experiência de trabalhar com os franceses me permitiu perceber que eles dão muito valor a arte”. Na hora de filmar, Tsai confessa que a linguagem não-verbal foi fundamental para dirigir seu elenco, que inclui Fanny Ardant, Jean-Pierre Leaud e Mathieu Amalric.
Essa é a segunda vez que Tsai vem ao Brasil. Em 2003 esteve em São Paulo a convite da Mostra de Cinema e, na época, rodou um curta que faz parte do projeto coletivo Benvindo a São Paulo. O diretor conta que ainda não teve oportunidade de ver o filme na íntegra, mas que já tem um DVD e o verá assim que voltar para casa. Mas a relação do malaio com o país data desde a década de 1980, quando viu Bye, Bye Brasil, de Carlos Diegues. “Foi um filme que me marcou muito. O tom de humor, aquelas pessoas levando a arte pelo país... tudo me encantou. Tenho muito carinho por este longa”.
Para mais informações sobre a mostra e a programação completa completa, acesse www.bb.com.br/cultura
